Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

À caminho de uma nova dimensão

Bruno deixou a mim e o Yann na beira da BR que leva até Cruzeiro do Sul, próximo à um ponto de ônibus que somente utilizaríamos para proteger nossa bagagem da garoa fina que caia e intercalava com o forte sol característico da região amazônica, uma vez que nossa intenção era de conseguir uma carona. Muitas pessoas paravam quando acenávamos, entretanto a maioria só avançaria poucos quilômetros até a próxima cidade ou rotatória, e nós queríamos chegar ao final dessa rodovia que se encontrava à por volta de 700km de onde estávamos. Após algumas horas, percebemos que teríamos que fazer a viagem em partes, ou ficaríamos ali o dia todo, sendo assim subimos no seguinte carro que parou.

O motorista era fiscal de uma balança de caminhões, local para onde ele estava se dirigindo no momento, nos disse que também poderíamos ficar por lá, pois acreditava ser um bom ponto para conseguirmos outra carona. Yann e eu nos alternávamos entre acenar na beira da estrada e conversar com os caminhoneiros que paravam na tal balança, após muitas tentativas frustradas, o mesmo agente que nos trouxe convenceu um dos motoristas que conhecia a nos levar até Feijó, quase metade do caminho para nosso destino final, subimos na caçamba com diversos gêneros alimentícios e seguimos a estrada.

Cruzeiro

 

A viagem foi bem demorada devido as péssimas condições de pavimentação, Yann me distraia com alguns enigmas, e eu tentava admirar a paisagem apesar da poeira quase me cegar quando abria os olhos. Paramos para um lanche pela tarde e só chegamos ao nosso destino tarde da noite, que era um abrigo para trabalhadores de uma empresa que fazia a manutenção da estrada pela qual estávamos viajando. Ajudamos a descarregar o caminhão, e jantamos com os funcionários com direito a suco e cafezinho. O motorista comentou que pela manhã muitas vezes saiam caminhões para Cruzeiro do Sul, portanto decidimos montar nossas barracas por lá mesmo.

No dia seguinte arrumamos nossas coisas, fomos convidados para tomar café da manhã com os funcionários, porém o caminhão que iria para Cruzeiro do Sul não estava por lá, subimos então no primeiro que encontramos e voltamos para estrada, paramos mais uma vez num posto de controle de caminhões ainda na região de Feijó. Fomos muito bem recebidos pelos fiscais, que nos ajudavam a descobrir quais caminhões iam para Cruzeiro, e jogavam conversa fora pra passar o tempo, mas as coisas não estavam fáceis por lá, já não tínhamos mais comida e por sorte os funcionários nos presentearam duas marmitas que nos alimentaram pelo dia todo. Tive tempo para ler metade de Capitães da Areia, e quando o sol começou a se pôr, desistimos da idéia de conseguir uma carona no mesmo dia e começamos a montar nossas barracas para passar a noite. Eis que um dos fiscais grita de longe que havia conseguido um transporte pra gente, um caminhão de gás que já ia com a cabine cheia, porém aceitou nos levar na caçamba com os botijões, transporte de luxo naquela altura do campeonato.

Passamos por alguns sufocos como por exemplo a corda que segurava todos os botijões estourar, e por pouco não sermos amassados por milhares de quilos de metal oxidado. Depois o motorista decidiu parar para tomar dreher quente, algumas cervejas, além xavecar umas menores de idade e jogar sinuca sem camisa, o que me deixou bem tranquilo quanto ao longo trajeto que tinha pela frente por uma rodovia sem iluminação e cheia de buracos. Porém um ocorrido me ajudou a descontrair um pouco, havia outro caminhão de gás parado em frente ao bar, ele deu partida e começou a sair o que causou a instantânea reação no Yann de se levantar em disparada atrás do caminhão por vários quarteirões, chegando a alcançar o mesmo no desespero de pensar que estava sendo deixado para trás, me garantindo alguns minutos de boas risadas.

Apesar de tudo chegamos sãos e salvos à Cruzeiro, já tarde da madrugada, acredito que próximo ao amanhecer, o motorista e seus ajudantes foram beber mais, e ficamos conversando com um deles, que não podia entender porque nos submetíamos a situações como aquela, era tudo tão subjetivo e intangível para aquele homem, que por mais que eu explicasse, só causava mais desconfiança e confusão. Decidimos dormir na traseira do caminhão para que no dia seguinte tentássemos entrar em contato com Osmildo o cacique dos Kuntanawa, e combinar nossa ida para a aldeia.

Acordamos cedo da manhã e o pessoal do caminhão era tão gente boa que ainda queriam nos deixar com dez reais pra tomar o café da manhã, não aceitamos e fomos atrás de um telefone pra entrar em contato com Osmildo. Quando encontramos o telefone público mais uma surpresa, o número que ele nos deu estava errado, não sabíamos oque fazer para encontrá-lo e caminhamos sem rumo pela cidade, até que uma senhora indígena nos abordou, puxou uma conversa e depois de alguns minutos decidimos perguntar se ela conhecia o Osmildo, que por um abençoada coincidência não só conhecia, como também sabia onde encontra-lo, na OPIRJ, organização indígena dos povo da região.

Após algumas voltas pela cidade chegamos a OPIRJ, e encontramos Osmildo, entretanto o orçamento para chegar a sua comunidade que fica a alguns dias de barco da cidade era de trezentos reais, ou seja fora de cogitação. Ficamos um pouco desanimados e trocando uma ideia com Arnaldo, um cineasta adepto da causa indígena que tem por volta de seus quarenta anos, comentou conosco que haviam aldeias de mais fácil acesso, próximo à rodovias, além de uma comunidade de ribeirinhos seguidores do Ayahuasca no rio Croa, disse que possuía contato com essas pessoas, e que poderíamos passar uns dia no Croa, enquanto ele tentaria articular com outras lideranças indígenas a viabilização de nossa visita. Aceitamos o convite sem cerimônia.

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