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As pequenas grandezas no caminho

As flores do jardim Puyanawa

O caminhão que levava a mim e ao francês Yann à aldeia dos Puyanawa, teve alguns problemas mecânicos durante o trajeto, porém foi logo resolvido pelos próprios passageiros junto ao motorista, esse que mais assistiu o trabalho executado pelos populares.  Pedi para o condutor, que nos avisasse quando estivéssemos próximos à casa de Luiz (Puwe), liderança que conhecemos em Cruzeiro do Sul por indicação de Arnaldo, funcionário da OPIRJ.

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Assim que começamos a entrar no território indígena, pude notar alguns traços históricos da etnia em sua arquitetura, os Puyanawa são um povo mestiço, uma mistura de negros, branco e indígenas, e isso se reflete em suas moradas, que vão de alvenaria e tábuas à construções tradicionais indígenas com madeira regional. Toda essa miscigenação se deu após seus ancestrais serem massacrados pelos barões da borracha, na época em que o Latex era extraído das seringueiras da região, a etnia chegou a ser considerada extinta e a pouco tempo foi reconhecida outra vez pela FUNAI.

O caminhão nos deixou na casa de Puwe, cruzamos um campo de futebol e caminhamos até a casa feita inteiramente de madeira, grandes troncos na base e varas uniformes formavam paredes e teto, a construção possuía um chapéu anexado, onde havia uma grande mesa circular e um banco ao redor, tudo feito com um capricho que só poderia ter sido alcançado artesanalmente. Fomos muito bem recebidos na casa de Puwe por toda sua família e amigos, que circulavam constantemente em sua morada, o clima era extremamente cooperativo e amigável. Os detalhes do cotidiano se davam de uma maneira deliciosamente simples, tomar banho nú no igarapé, comer com todos sentados no chão, comida feita no forno à lenha, muita da qual era cultivada ou coletada na própria aldeia, macaxeira, cuscuz, peixe assado, arroz, feijão, muita fartura, quase todos os quintais das casas possuíam arvores frutíferas, caminhar pela aldeia era um tour gastronômico de frutas regionais, ingá, cupuaçu, mamão, banana, biribá, buriti, tucamã. Os habitantes da aldeia sobrevivem com cultivo de subsistência, da venda de alguns produtos como a farinha de mandioca, do funcionalismo público exercido em funções na escola e posto de saúde, e alguns de planos assistencialistas do governo.

Em um dos dias que passei na aldeia, fui convidado a acompanhar um grupo que sairia para pescar, a ideia era se preparar até o final da tarde, para que pudéssemos apanhar os peixes ao anoitecer. Chegamos à um pequenos igarapé, de onde seguimos viagem em canoas as quais as bordas ficavam à dois dedos de distancia da água, a técnica utilizada na pescaria era o espinhel, que consiste em amarrar uma linha com alguns anzóis em dois pontos fixos e verificar com certa frequência se fisgou algum peixe. Montamos dezenas e espinheis, ficamos por volta de seis horas no igarapé, comendo farinha molhada e conferindo os anzóis, e ainda assim o melhor peixe que pegamos foi de uma rede que nem era nossa, e estava montada lá por perto.

Puwe apesar de não ser o cacique da aldeia, é uma das lideranças mais respeitadas na comunidade, ele e sua mulher Sharanaya, perceberam que os membros da aldeia tinham vergonha de suas origens e tradições indígenas, por as considerarem inferiores à sociedade moderna, tendo isso em vista, eles iniciaram um trabalho de resgate e valorização da cultura tradicional Puyanawa. Puwe, foi buscar orientação com Benki um Xamã do povo Ashaninka, para iniciar os trabalhos espirituais entre os Puyanawa, sua mulher Sharanaya, que possui formação em Artes, começou a organizar as mulheres da aldeia para formar grupos de estudos sobre artesanato e pinturas corporais. No inicio desse trabalho houve muita resistência, uma vez que a maior parte dos integrantes da comunidade eram evangélicos (há 3 igrejas para uma aldeia de 500 pessoas), e os acusavam de estar praticando magia negra. O próprio cacique da aldeia, que era evangélico, paradoxalmente não participava dos rituais tradicionais indígenas, mas pouco à pouco Puwe e Sharanaya foram ganhando a confiança das pessoas, e o grupo que inicialmente contava com dez pessoas, hoje conta com centenas de integrantes, inclusive o cacique.

 

Nosso cotidiano era maravilhoso, porém me sentia incomodado de estar desfrutando de tudo que me era fornecido, e não fazer nada em troca. Conversando com Puwe, soube que eles estavam participando de alguns editais para captação de fundos, com objetivo de realizar melhorias estruturais na aldeia e abrigar mais uma vez as Olimpíadas Indígenas do Acre, achei a ideia genial e me dispus a redigir aqueles projetos junto á ele. Achava muito curioso o contraste de conhecimentos que havia entre nós, ele ficava impressionado quando eu usava o “ctrl+c / ctrl+v” pra copiar algum trecho do texto, e eu quando ele amarrava a rede em poucos segundos. Consegui realizar atendimentos nutricionais com algumas senhoras da comunidade, e Yann dava aulas de yoga para as crianças, que apareciam cada vez em maior número para se contorcer no chão de areia.

Os rituais xamanicos realizados na comunidade eram lindos, me sentia mais à vontade no trabalho indígena do que nos centros de Daime. A tacaniça era toda iluminada por lamparinas, que eram apagadas após a primeira dose de Ayahuasca, para que a claridade desse espaço à meditação, a Ayahuasca utilizada pelos Puyanawa era muito potente, um licor viscoso de tom bege que em poucos minutos começava a revelar todo seu potencial poder. Quando o efeito parecia estar alcançando seu pico, mais uma dose era servida, e todos eram convocados à participar da dança de roda indígena, todo o ambiente parecia potencializar ainda mais o efeito da substância, as canções entonadas em língua indígena, as saudações feita ao cacique que em certo momento ia ao centro da roda, uma ciranda de sons, cores, e movimento. Durante o intervalo Puwe aplicava o rapé em todos que desejassem, e logo voltávamos ao ritual, dessa vez para a sessão de música onde os participantes contribuíam com o som de seus tambores, maracas, vozes, violões e até mesmo a flauta transversal de Yann.

Depois de passar mais de duas semanas na aldeia, e terminar de redigir os editais que havia combinado com Puwe, senti que minha missão estava cumprida junto aos Puyanawa. Meu objetivo então era conseguir uma carona de volta à Rio Branco, onde passaria mais uma vez pela casa de Bruno do couchsurfing, para editar algumas fotos e atualizar minha página. Consegui uma carona com o cacique até a cidade de Cruzeiro do Sul, onde fui para um posto de gasolina conversar com alguns caminhoneiros para saber se algum iria a Rio Branco nos próximos dias. Conversei, mas todos se mostravam receosos em me levar em seus caminhões, acredito que suspeitavam de eu estar portando algo ilícito, o que acarretou no fato de eu passar o dia inteiro no posto e não conseguir nada, mas ainda assim me sentia sereno, parece que já imaginava um desfecho positivo dessa história. Nesse meio tempo já estava amigo dos frentistas, que me deixaram dormir na sala dos caixas eletrônicos, para que pudesse continuar minha empreitada no dia seguinte, pela manhã, havia me tornado conhecido entre os caminhoneiros, que começaram a perguntar entre sí se alguém poderia me dar uma carona para Rio Branco, chegou um ponto em que eu estava sentado no meio fio, comendo tapioca com doce de coco e cuscuz, quando um deles me chamou, inflando minhas esperanças, para me dizer em seguida que sim, me levaria para Rio Branco.

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