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As pequenas grandezas no caminho

Beleza e revolta em Humaitá

Antes de sair de Porto Velho, entrei em contato com Jania, que conheci por Couchsurfing e ela se dispôs a nos receber em sua casa, localizada na cidade Humaitá – Amazonas, combinamos que o ponto de encontro seria na própria rodoviária. Cruzamos o rio Madeira de balsa, e chegamos por volta de umas 20:00, chovia forte e o ônibus que nos levou parou em uma pequena estação no centro da cidade, demos uma rodada pela área mas para nossa surpresa, ela não estava por lá.

Na esperança de conseguir contato via internet, vesti minha capa de chuva e encarei a tempestade que caia em busca de uma lan-house que tivesse aberta tarde da noite em uma pequena cidade na fronteira do Amazonas. Após algumas informações contraditórias que recebi de uns tiozões alcoolizados, que estavam mais interessados em desmentir um ao outro, consegui chegar a uma lan-house. Cheguei sim, mas simplesmente para constatar que não teria abrigo para essa noite, pois não havia nenhuma mensagem da Jania, e ela não estava online, para não sentir que perdi a viagem enviei uma mensagem com o número do celular da Lais, que estava comigo.

No caminho de volta parei em uma em uma casa, expliquei a situação e perguntei se poderia montar minha barraca no espaço da varanda, a senhora me respondeu que morava com alguns PM’s que não iriam gostar da idéia, nem insisti muito e já sai andando quando a senhora me apontou um local, disse que lá havia muito espaço e provavelmente me deixariam acampar.

Cheguei ao local indicado e percebi que era um hotel, o que acabou com minhas esperanças de conseguir acampar por lá, seria contra o próprio intuito do negócio, mas mesmo assim decidi tentar. Cruzei o saguão do hotel e fui de encontro a recepcionista que logo disse que não havia mais quartos, mais uma vez contei toda a história do que havia ocorrido, e ela foi extremamente prestativa, me arrumou um espaço próximo as varandas dos quartos onde poderia montar minha barraca e passar a noite até conseguir entrar em contato com minha host do Couchsurfing.

O fato já me encheu de energia outra vez e voltava com muita alegria para contar para minha irmã que apesar de todo o revés, nossa situação estava resolvida por essa noite. De longe avistei a silhueta de alguém que conversava com Lais, fui me aproximando e fui reconhecendo aquele rosto das fotos do perfil do Couchsurfing, era Jania que recebeu minha mensagem, ligou para Lais e chegou minutos depois, já estavam me esperando por lá e tinham até feito uma busca ao redor da rodoviária, pois demorei para voltar uma vez que tentava conseguir outro abrigo para passarmos a noite.

Jania estava de carro e nos levou para provar o açaí amazonense, conversamos sobre viagens, estudos e profissões. Ela nos contou que era da PM, mas trabalhava num setor de assistência social à jovens, mais tarde nos levou à uma pequena casa, que disse ser o local onde morava antes, mas que agora deixava um amigo cuidando para ela. A casa era pequena e linda por dentro, com uma decoração simples e de muito bom gosto, assim que chegamos seu amigo foi embora e nos deixou com a casa só para mim e minha irmã, a parte engraçada foi que Jania enquanto saia nos disse que qualquer problema poderíamos entrar em contato pelo seu número de celular ou diretamente pelo 190.

A casa era muita confortável a aproveitamos para dormir por doze horas e recuperar as energias que andavam desgastadas pelo ritmo da viagem. Poucos minutos depois de acordarmos escutamos uma buzina, era o Bibi amigo da Jania que estava inicialmente na casa, vinha de carro e se dispôs a nos levar no supermercado para que comprássemos mantimentos para os próximos dias. Fizemos um macarrão e saímos pra conhecer a cidade, o clima era de um final de semana apesar de ser quinta-feira, pessoas tranquilas pelas ruas, crianças empinando pipa, brincando de índio. Fomos até a Secretaria de Cultura para saber se haveria algum evento nos próximos dias, entretanto eles estavam esperando a cidade “amornar”, ritmo bem diferente do que se encontra em grandes metrópoles, deixando claro que o comentário é um elogio.

Caminhamos então pela orla do rio observando a arquitetura de algumas casas de palafita, fomos pedindo informação, conversando com as pessoas pela rua e conseguimos chegar à casa onde estávamos hospedados antes do pôr do sol. Na geladeira uma surpresa: Açaí amazônico natural, algo que em São Paulo já chega congelado, sem comparação no aroma, cor e sabor, que ficava ainda mais gostoso pelo carinho e preocupação de pessoas que havíamos conhecidos havia poucos dias. Preparamos um macarrão para servir para nossos anfitriões, mas nem triscamos, pois estávamos nos empanturrando de açaí acompanhado de tapioca em flocos, o fato de conhecer a cidade com nativos tem enriquecido a experiência da viagem de uma maneira impressionante, mal podia esperar pelo próximos dias.

No dia seguinte acordamos dispostos a pegar uma balsa que nos levaria em direção à Transamazônica, rodovia de uma relevância histórica inestimável, entretanto nossa jornada poderia ser um pouco dificultosa, dado ao recente atrito que ocorreu com a população local e os indígenas. Há alguns meses o cacique dos Tenharim se acidentou por estar conduzindo uma motocicleta enquanto estava alcoolizado e morreu, os indígenas acreditam que ele foi assassinado e não aceitam a versão oficial dada pelas autoridades, sendo assim resolveram sequestrar um carro preto que passava próximo a aldeia, pois haviam rumores de um veículo parecido estar próximo ao cacique no momento do acidente, as três pessoas que estavam no carro desapareceram dentro da aldeia.

A população, que não possuía histórico de conflitos violentos com as comunidades indígenas se indignou e exigia das autoridades uma investigação do caso, porém por se tratar de uma reserva indígena, a polícia local não possui o direito de realizar tal investigação, somente a polícia federal possui respaldo jurídico para tal ato.  A medida que os populares encontraram para chamar atenção das autoridades (se incitados por algum grupo com outros interesses já não sei) foi o nada pacífico incêndio e destruição de postos, carros e embarcações da FUNAI. Em pouco tempo a cidade estava repleta de agentes da polícia federal, força nacional e do exército, controlando todas as vias de acesso à cidade.

Mesmo sabendo que os indígenas possuem uma cultura distinta da nossa, com sistemas de hierarquia, conceitos de certo e errado diferentes do “homem branco” e necessitam um outro tipo de julgamento de seus atos, além de uma assistência específica por parte do governo, vejo também uma população de ribeirinhos que não recebem nem uma assistência básica que se pressupõe como mínima para viver como segurança alimentar, habitação digna, saneamento básico, educação e saúde de qualidade, e apesar de não concordar com a violência posso reconhecer suas origens.

Ainda assim conseguimos cruzar a balsa no carro de o dono de uma pequena propriedade chamado Marcos, pois só o moradores estavam sendo autorizados a passar. Fomos conhecer sua fazenda localizada na Transamazônica, onde criava por volta de sessenta cabeças de gado, ficamos um tempo por lá até ele perceber que haviam roubado alguns de seus gados e ficar bem nervoso, nesse momento achamos melhor sairmos para dar uma volta pela famosa rodovia. Comemos uma fruta chamada ingá e conhecemos algumas crianças ribeirinhas no caminho, até dar o horário que havíamos combinado de voltar e encontrar Marcos. Ele nos levou de volta para o outro lado do rio, nos despedimos dele e seu ajudante ainda na balsa e voltamos para a casa de Jania.

De volta ao nosso temporário lar, fomos mimados mais um pouco, comemos pupunha assada, que tem um sabor parecido com castanha portuguesa e sua semente tem dentro uma castanha que é muita parecida com coco, comemos também castanha do pará (que eles dizem ser amazônica) fresca do ouriço, tudo isso enquanto esperávamos dois Tambaquis gigantes serem temperados para depois assa-los na brasa  ali mesmo no quintal, nomais alto estilo tradicional da região.

Essa foi sem dúvida, uma das melhores experiências que tive com o couchsurfing, pude conhecer intimamente a cultura local, numa perspectiva de seus próprios habitantes.

 

One Response to “Beleza e revolta em Humaitá”

  1. Jania says:

    Que lindo todas as fotos. Parabéns pelo trabalho.

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