Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

Brasilidade de Mâncio Lima

Voltamos para Cruzeiro do Sul com intuito de resolver algumas burocracias, Yann precisava de uma autorização para seguir sua viagem pelo território dos Nukinis e Serra do Divisor, e nós dois necessitávamos declarar à FUNAI nossa presença em terras indígenas, uma vez que o próximo destino seria a aldeia dos Puyanawa. Após todos os trâmites, a única etapa que ficara pendente era a assinatura da liderança indígena Nukini, conversamos com algumas pessoas na FUNAI que nos informaram que tal liderança, Erisson, se encontrava no município de Mâncio Lima, no caminho para a aldeia Puyanawa, seguimos então para lá.

Ao chegar em Mâncio Lima ligamos para Erisson que em pouco tempo nos foi encontrar, assinou os documentos sem nenhuma resistência e nos convidou para passar um tempo na sua casa, dizendo conhecer algumas pessoas que mais tarde nos poderiam levar até a aldeia dos Puyanawa. A primeira cena que vimos ao chegar foi de sua mulher fazendo alguns artesanatos em uma pequena casa de madeira, pedi para usar o banheiro e foi algo muito curioso, era uma estrutura feita de tábuas, ao redor de um buraco no chão, no qual haviam milhares de vermes que tinham a função de compostar todos os dejetos orgânicos que caiam por ali. Depois da minha nova experiência escatológica, acompanhei Erisson durante o preparo do rapé, e o ajudei a embalar o produto, ato que acabou me rendendo um saquinho repleto do pó indígena como presente.

Na mesma tarde Marcos, outro integrante da aldeia dos Nukinis que conhecemos em Cruzeiro do Sul, deu as caras pela casa na qual estávamos hospedados, conversamos por algum tempo e ele comentou que no dia seguinte, viria para Mâncio Lima um caminhão dos Puyanawa, que faria compra de mantimentos para a comunidade e que geralmente levava algumas pessoas para a aldeia. Depois de algum tempo os amigos de Erisson que se disponibilizaram a nos levar para a aldeia Puyanawa apareceram, conversamos com eles e disseram que cobrariam a quantia de quarenta reais por tal serviço, decidimos então que seria melhor esperar até o dia seguinte para tentar uma carona com o caminhão.

Marcos nos levou em seu carro para conhecer um pouco do município de Mâncio Lima que estava cheio de cores devido às vésperas de carnaval, interagi com umas crianças que incialmente me vieram pedir dinheiro, mas quando comecei a olha-los nos olhos e dar atenção pra nossa conversa a relação mudou instantaneamente, se tornou algo mais íntimo e particular, aqueles garotos me lembravam personagens como Sem-Perna, Professor e Pedro Bala, vindos direto do trapiche descrito em Capitães da Areia de Jorge Amado, criei uma afeição intensa por aqueles pivetes num curto espaço de tempo.


Me despedi de meus pequenos grandes amigos e fomos à casa de Marcos, onde pude saborear algumas frutas orgânicas colhidas diretamente de seu quintal, carambolas maiores que minha mão com os dedos estendidos, água de coco verde fresca, mamão papaia doce como a cana de açúcar que também comemos por lá, e me trouxe memórias nostálgicas de minha infância no sítio de minha família em São Lourenço da Serra. Voltamos à casa de Erisson, onde pela noite rolou um luau, música, fogueira e bastante rapé, o clima estava ótimo mas fui dormir cedo, pois sabia que no dia seguinte teria que encontrar o caminhão que nos levaria à aldeia dos Puyanawa.

Na manhã ulterior, tomamos café da manhã sentados no chão com toda a família de Erisson, nos despedimos e pegamos uma carona com Marcos, que iria nos levar até o mercado do município onde estaria o caminhão sendo abastecido com mantimentos. Encontramos o caminhão no meio do caminho, Marcos acenou para o motorista que encostou o veículo na beira da avenida, e subimos à bordo, sendo a próxima parada: Aldeia dos Puyanawa.

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