Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

Destino Isla Margarita

Ouvi muitas histórias sobre a Isla Margarita, e acho que como todo mundo, sempre tive o sonho de poder ver de perto o mar do Caribe. Estava ainda no extremo sul da Venezuela, e uma viagem direto a ilha seria muito cansativa, decidi então que me pousaria uns dias em Puerto Ordaz, onde já teria adiantado metade do trajeto. O acesso à internet era limitado e muito difícil nos pequenos vilarejos indígenas onde me encontrava, em uma pequena cidade consegui me conectar e rapidamente combinei com uma garota em Puerto Ordaz, que me receberia na cidade.

Na mesa ao lado uma mulher professava o fim do mundo, gritava e acusava um sujeito oculto de todos os males de sua vida, talvez ela tivesse algo de razão, talvez fosse mais razoável que a maioria de nós que já aceitamos tudo como “normal”. Ela vestia trapos, os dentes, rugas, cicatrizes contavam um pouco de sua história, e eu estava lá, tinha comprado o que comer e um café para utilizar a internet do espaço, combinei de me encontrar com a minha anfitriã e fui embora, não compartilhei minha comida com aquela mulher, nem fui perguntar mais sobre o que ela tinha a dizer, acho que vivendo numa grande metrópole brasileira criei meu escudo de indiferença para me proteger, e é difícil baixar a guarda.

isla margarita-15

Após seu trabalho Andreina passou para me buscar na estação com seu charmoso Fusca ouvindo Skrillex em alto-falantes portáteis, a gente já se deu bem de começo, entretanto parece que nossa comunicação anterior não havia sido tão boa assim. Fiquei em choque quando com sono, fome e todas as outras necessidades biológicas ao mesmo tempo, descobrir que na verdade minha anfitriã só poderia me receber para comer algo e me mostrar um pouco da cidade, não poderia passar a noite por lá, pois ela havia vivido algumas más experiências anteriores, e estava se reintroduzindo pouco à pouco na hospedagem solidária.

Ainda que em só uma tarde, ela me ajudou bastante, trocou meu dinheiro, me deu de comer, me levou para buscar toalhas, me apresentou um museu, quedas d’águas e parques, passamos na casa de sua amiga, e no mecânico para fazer um orçamento do conserto do carro, nossa, será que foi só uma tarde mesmo? Ainda usei a internet da sua casa e tirei um cochilo rápido, agora escrevendo esse parágrafo estou pensando nas tardes em que tudo que eu fiz foi rolar a barra de rolagem do facebook com a boca entreaberta e o reflexo da luz da tela no meu rosto ilustrando a penumbra de algum quarto úmido. Que merda, crack virtual.

isla margarita-16

Na Venezuela a gasolina é subsidiada pelo governo, com alguns centavos se pode completar o tanque de um carro, por consequência os ônibus são muito baratos, não me dei nem ao trabalho de tentar uma carona, fomos tomar uma cerveja assim que caiu o dia, e as meninas me deixaram direto na estação de ônibus. Me dirigi à cidade portuária de onde saem os ferrys para a tão esperada Isla Margarita, cheguei mesmo antes dos caixas estarem abertos, então fui tomar um café e fumar uns cigarros com os estivadores enquanto esperava a chegada dos ferrys.

A travessia saiu um pouco cara, mesmo pegando o barco lento, mas já que estava lá, aproveitei meus 5 minutos de patrão, tomei um suco de laranja com o mindinho levantado na proa da embarcação com o vento que batia na minha sedosa (sebosa?) barba.

A música tocava alto, vinda de grandes alto falantes instalados por todo o ônibus, o ritmo do reggaeton dava cadência ao flerte dos adolescentes cheios de uma malandragem simpática no sorriso, depois de passar pelas Guianas, finalmente me sentia na América Latina. Eu tinha o nome de um bairro na cabeça, “El Tirano”, um nome não muito convidativo, porém lembrava que Jhonatan, o maluco de estrada que conheci quando estava cruzando a fronteira, me havia dito que lá podia encontrar um camping com banho quente e cozinha por menos de 3 reais, bom, esse é o tipo de informação que eu não esqueço.

O lugar era arrumadinho, nada de luxo, mas sem muito perrengue também, era um grande quintal de uma casa de família em uma pequena rua bem difícil de achar. Os personagens eram um grupo de jovens argentinos e uma chilena que viajavam fazendo malabarismo e macramê, um colombiano que já tinha morado na Brasil e fazia eco-bijuterias, um brasileiro gingueiro que fazia arte com palha, um velho vagabundo com muito orgulho que transmitia suas sabedoria de vida mundana, e eu chegando pra completar o circo. A convivência foi intensa, de amor e ódio, mas posso que dizer que em duas semanas formamos uma família, as forças de nossas diferenças entraram em equilíbrio pelo simples fatos de estarmos dispostos a viver juntos, errando e aprendendo com humildade.

Juarez, o brasileiro da arte de palha, precisava de algumas fotos para montar um catalogo com suas obras, assim poderia trabalhar sobre encomenda e carregar menos material na praia durante suas vendas. Eu me comprometi de ajuda-lo com a questão das fotos, e acabei ficando um pouco focado nesse tema durante a produção das imagens, ou seja, quase não tenho fotos de paisagem da ilha, o que por um lado acho interessante também, o registro do cotidiano, da beleza que não paramos para apreciar no dia a dia.

Espero que gostem, nos vemos nas montanhas de Mérida.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *