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As pequenas grandezas no caminho

Do Chuí ao Oiapoque

oiapoque

Chegar a última cidade ao extremo norte do Brasil não é uma tarefa fácil, e dependendo da época do ano, próximo a estação de chuvas pode ser um grande desafio que beira a insensatez, diversas empresas deixam de fazer suas entregas por conta das condições da estrada, porém alguns destemidos caminhoneiros não se importam com a adversidade, ao contrario, se orgulham e exibem fotos em seus celulares da estrada de barro que mais parece um pântano ou um garimpo, cheio de buracos na terra, completamente alagada. Apesar das dificuldades eu não deixaria de tentar, se existem caminhões cruzando, algum poderia me levar.

 

E não foi muito diferente do que eu pensei, depois de algum tentando, um caminhão parou disposto a me levar. Dirigimos por várias horas, e avançamos poucos quilômetros, íamos devagar quase parando, enroscando em um buraco atrás do outro, até o momento que atolamos de verdade. Foi necessário descer, montar alavancas com as ferramentas que tínhamos disponíveis como correntes, troncos, tábuas e no sufoco tiramos o caminhão do atoleiro, avançamos mais alguns poucos quilômetros em mais algumas muitas horas e chegamos a uma ponte quebrada, diversos caminhoneiros aguardavam a liberação da ponte, como minha carona só iria até esse ponto da estrada, comecei a sondar novas possibilidades.

 

Um a um fui conversando com todos os caminhoneiros que ali encontrei, alguns simpáticos, outros nem tanto, alguns curiosos, outro indiferentes, cada um com sua maneira de reagir ao meu pedido. Há um tempo atrás, eu ficaria puto com as respostas agressivas que recebi de alguns, hoje em dia tento entender a fase de evolução espiritual de cada ser, e apesar de difícil, evito julgar a maneira de ser de cada um, pois desconheço suas historias, suas lutas e suas glórias, cada pequeno acontecimento em suas vidas o levaram a ser quem é hoje, agradeço e sorrio, muitas vezes esse pequeno detalhe fez com que pessoas mal encaradas mudassem de ideia ou buscassem me ajudar de alguma outra maneira.

 

Me aproximei de um grupo jovem, todos entre 25-40 anos, com aparência de terem vindo de cidade grande, puxei assunto e eles retribuíram, perguntaram muito sobre minha viagem e sobre fotografia, eles também, apesar de não ser um trabalho artísticos, utilizam a fotografia em suas profissões, eram fiscais da estrada, registravam todas as imperfeições e problemas no trecho (mais fácil seria registrar as conformidades, não tomaria muito tempo), comentei sobre minha necessidade de carona e disseram que eu precisaria conversar com a chefe, que era uma mulher e a mais nova do grupo, ela acabou dizendo que também já foi mochileira, mas que todo o grupo que estava com ela tinha um seguro de vida pela empresa, e que não poderia me levar correndo esse risco de eu não estar assegurado, como de costume sorri e agradeci, acabei ganhando um kit de lanche com sanduiche, salada de fruta, suco e sobremesa, já valeu o sorriso.

 

Depois de mais uma sondagem acabei encontrando um caminhoneiro que estava com um amigo, disse que sim poderia me levar, tinha recebidos tantos nãos que como reflexo sai andando sem nem perceber que a resposta havia sido positiva, voltei e confirmei a dúvida, e ele disse que sim de novo sem hesitar nem fazer muitas perguntas, na camaradagem mesmo. Subi no caminhão e no trajeto ele foi me contando que essa era a parte mais complicada da estrada, e sem muita demora, atolamos. Mas dessa vez a parada foi nervosa, caímos numa valeta e tínhamos toda a parte de baixo do caminhão encostada no chão, nem com alavanca e muita gambiarra pudemos tirar o caminhão da vala. Nos sentamos no barro para pensar em que fazer, já estávamos coberto por ele mesmo, e foi nesse intervalo de tempo que surgiu nossa esperança. Aquele grupo de fotógrafos que fazia a vistoria da estrada apreceu, passaram por nós com uma 4×4 e como haviam visto que estávamos com dificuldade no atoleiro, decidiram regressar para ver se tudo andava bem, bendita hora.

 

 

Atamos o caminhão à 4×4 utilizando correntes, e em poucos minutos estávamos fora do atoleiro. Esse não seria o último nem as condições da estrada melhorariam, mas pouco à pouco fomos avançando até alcançar nosso destino: Oiapoque. Lá estava eu, completando minha utôpia dos tempos de aula de geografia no ensino fundamental, de conhecer o Brasil de Oiapoque ao Chuí, que visitei quando viajei pelo sul do país. Alguns dias anteriores havia entrado em contato com alguns Couchsurfers que não responderam minhas solicitações, a grana não estava sobrando e não rolava pagar pousadas de 40 reais dentro do meu orçamento. Foi quando eu lembrei que o André, que conheci em Macapá, havia comentado que tinha uma amiga no Oiapoque, fui a uma lan house e afortunadamente o encontrei online, em poucos minutos ele tinha conversado com a amiga, e me passou o endereço de seu trabalho para que a encontrara.

 

O endereço era de uma instituição indigenista chamada IEPÉ, assim que cheguei conheci Poena, que me receberia em sua casa, e também Ana, uma paulistana que já mora há vários anos no Oiapoque. Conversamos um poucos, foram bem simpáticas desde o inicio, organizamos a cronologia do dia incluindo me acomodar, me apresentar o trabalho do IEPÉ, visitar um lindo lago e ainda terminar em uma festinha na casa de uns amigos, com direito à um delicioso bacalhau, vinho e skunk que não via desde meus tempos de Madrid.

 

 

 

Tudo fluiu muito gostoso, a galera curtia boa música, apreciava arte, festa, eram todos educados e inteligentes, além de muito receptivos, me senti como se estivera com velhos amigos, a única parte ruim de conhecer essa galera, foi ter que me despedir deles. Poena, que me estava recebendo em sua casa tinha uma amizade muito forte com um francês, que morava do outro lado do rio, na primeira cidade da Guiana Francesa, Saint Georges de L’Oyapoque. Ele tinha uma linda filha com uma brasileira, que falava muito bem os dois idiomas, francês e português, com apenas 6 anos, um doce de menina, durante meus dias na casa de Poena conversei muito com o francês, e me dei muito bem com sua filha também, e por gentileza ou afinidade ele acabou me convidando para dormir um dia em sua casa do outro lado do rio, para descansar antes de conseguir uma carona para Cayenne, a capital.

 

 

Me despedi de meus amigos de Oiapoque e cruzei o rio, desde o início ele me ajudou com as burocracias de vistos, selos, tomamos algumas cervejas, fumamos tabaco e assistimos o documentário do Manu Chao em sua turnê pela américa latina. Nesse período já fazia alguns dias que eu estava com algumas irritações na pele, qualquer pequeno arranhão se transformava em uma grande ferida, comecei a ficar preocupado pois elas só aumentavam, como ele é um enfermeiro experiente decidi perguntar o que achava daquilo, ele bateu o olho e reconheceu o Staphilococus, parece que é algo bem recorrente na região, me disse o nome de algumas pomadas e antibióticos que eu deveria tomar, não lembro os nomes mas lembro que eram bem caros, ia causar um rombo no meu orçamento, mas conversando com minha irmã que estuda medicina, e outro profissionais da saúde, todos recomendaram seguir o tratamento, necessitava encontrar uma alternativa para conseguir aqueles remédios.

 

Comentando sobre a situação com o francês, ele se propôs a me ajudar, pelo seu trabalho tinha um seguro de saúde que cobria esses medicamentos, e disse que talvez conseguisse se passar por paciente para obter o direito de retirar os medicamentos, e foi o que ele fez, no dia seguinte já tinha todos os remédios e as instruções de uso. Depois disso ele se sentiu mais tranquilo para me levar a um ponto na estrada onde poderia conseguir uma carona mais fácil, e ficou lá até algum carro parar, outra linda alma que cruzou o meu caminho. Agora já estava tudo encaminhado para chegar à capital da Guiana Francesa, Cayenne, onde tinha planos de ficar alguns meses e juntar alguns euros, mas acho que vou deixar essa história para o próximo post.

 

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