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As pequenas grandezas no caminho

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Meus primeiros passos na Colômbia

Bucaramanga foi uma experiência interessante no sentido de romper paradigmas e preconceitos, geralmente quando converso sobre minha viagem com outras pessoas, muitas comentam “Ah mas você é homem, assim tudo fica mais fácil” E por mais que eu argumente, mostre blogs de mulheres, e até meninas que estão mochilando sozinhas por ai, é muito difícil convencer as pessoas de que a experiência independe de gênero, e não estou sendo hipócrita negando a existência do machismo, se tem um idioma que é falado no mundo inteiro, é o machismo. E minha história é justamente sobre a percepção dos nossos próprios tabus.

Imagina, estamos falando do medo das pessoas de pegarem carona e dormirem na casa de desconhecidos, mas e quem está do outro lado? O motorista ou o dono da casa, será que não estão com a mesma insegurança que nós? Eu também fui viajar cheio de medos e preconceitos, achando que rico não ajudava, que carro bom não parava, (foi provado o contrário no post de Saint Laurent) e achei que seria muito difícil ser hospedado por mulheres,  e adivinha onde fiquei em Bucaramanga, a primeira cidade Colombiana que visitei na minha vida? Em um lindo apartamento na parte nobre da cidade, onde morava uma mulher por volta dos 50 anos com sua filha que tinha a minha idade.

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Já, de cara, vários pré-conceitos sendo triturados ali na minha frente, lembro que na época meu laptop estava com defeito, e fiquei quase duas semanas naquele apartamento tentando encomendar peças, e elas sempre me deixando muito à vontade, me incluindo nas atividades da casa, me recomendando lugares para visitar e fotografar, em uma dessas conversas me recomendaram Barichara e San Gil, umas cidadezinhas históricas que decidi visitar enquanto esperava chegarem as peças do computador.

O problema que tive com meu laptop gerou um gasto alto, que não estava previsto no meu orçamento, portanto mesmo querendo visitar esses vilarejos que me recomendaram Natalia e sua mãe, não poderia aumentar meus custos, e sendo esses vilarejos locais tão pacatos, foi impossível encontrar couchsurfing nas redondezas. Mas dinheiro nunca foi motivo para eu fazer ou não algo que queria, e não seria nesse momento diferente, peguei uma muda de roupa, meu equipamento fotográfico e parti.

 

“Chegando em San Gil, comecei a bater de porta em porta nas pousadas oferecendo uma sessão de fotos para serem utilizadas em anúncios e redes sociais, em troca de minha hospedagem por alguns dias, e por incrível que pareça, só precisei perguntar em três locais até aceitarem a posposta.”

 

Isso é algo que faço muito em minhas viagens, troca de serviços, é o famoso ganha-ganha, a dona da pousada contratou um caro serviço de fotografia profissional por algumas diárias de um quarto que estava vago, e eu economizei algumas centenas de reais me hospedando confortavelmente no centro de uma cidade turística. Isso é algo que recomendo a todos os viajantes low cost, da para economizar muito com a troca de serviços. Todo mundo tem alguma habilidade para oferecer, não precisar ser necessariamente fotografia, pode ser pintura ou desenho, fazer um cartaz para algum restaurante, um desenho na lousa, cozinhar para uma família, fazer malabarismo no farol, costurar, lavar prato, seja lá qual for sua habilidade, sempre há alguém que precise dela, é só quebrar o medo de se expor, oferecer trabalho é algo bem visto na maioria das culturas.

Vou publicar algumas fotos que fiz em Barichara, que foi a cidade que mais me chamou atenção entre elas por questões arquitetônicas e históricas, fiquei alguns dias por lá e logo regressei à Bucaramanga, na verdade agora olhando o mapa não tenho certeza se voltei a Bucaramanga ou se já de uma vez parti para Bogotá, que seria minha próxima parada, em todo caso, estarão aqui as fotos.

Bogotá, a capital da Colômbia, um lugar que queria muito conhecer, e tinha um contato de viagens por lá, uma amiga, parceira de mochila que conheci em Buenos Aires na argentina, e viajamos juntos por algumas semanas, já havia entrado em contato com ela, que estava viajando e chegaria nos dias seguintes, já de antemão me passou o contato de uma outra amiga que estava na cidade, e que poderia me receber enquanto ela não chegasse.

As belezas secretas de Mérida

O Redescobrir é um projeto que nasceu sem um objetivo específico, e essa pra mim é uma das características que o torna mais interessante, a ausência do conceito que delimitaria o seu tornar-se., ele é assim por ir existindo.
Em Mérida tive uma experiência muito interessante, a primeira pessoa que tive contato foi Michelle na cidade foi Michelle, uma garota local que foi me encontrar em um dos primeiros dias em uma praça no centro histórico da cidade, nos afinizamos bastante e a partir desse dia começos a sair juntos, ela me levou para conhecer toda a região montanhosa que cerca a cidade, vilarejos e banhos termais, mas isso vou detalhando melhor ao longo desta publicação.

 

 

Conheci através de Michelle, sua prima Luisana, pessoa muito agradável que me acolheu de braços abertos em sua família, dormimos alguns dias em sua casa e em um desses dias tive uma experiência gastronômica fascinante. Sua família que cultiva choclo, um tipo de milho grande e doce, colheu algumas espigas de seu quintal e me prepararam um grande prato de arepas de choclo. A massa feita de cem por cento milho ralado, espalhada na frigideira untada de manteiga caisera forma uma espécie de panqueca muito saborosa que se come geralmente acompanhada de queijo fresco.

As meninas eram ótimas dançarinas de salsa, não dessas cheias de técnica de escolas de dança, mas sim daquelas que conhecem o garçom do bar, se cumprimentam com um sorriso e no meio da noite, como em um lapso de ritmo que toma conta de seus corpos latinos, estão movendo-se em sincronia, enchendo o salão de alegria e naturalidade, me colocavam naquele turbilhão de balanço no qual eu tentava acompanhar, que gentilmente segundo eles foi sucesso, mas independente disso, eu sempre me divertia muito.

O lugar que eu fiquei hospedado por mais tempo parecia de um conto de fadas, uma casa no alto da montanha, isolada da cidade, com uma vista panorâmica maravilhosa, cercada de natureza e com um ar que enchia meus pulmões de frescor pela manhã, uma herança de família onde morava um jovem casal de caraqueños, Juan e Tahíri, que gentilmente me abriram as portas de sua casa durante a minha estadia em Mérida.

 

 

Fazia tempo que não dormia tão bem, as janelas do meu quarto eram de madeira maciça e bloqueavam a entrada de qualquer raio solar, permitindo que eu estendesse meu sono pela manhã, e que pudesse recuperar um pouco do cansaço crônico que uma viagem na intensidade que estava fazendo acarreta. Nessa minha viagem, talvez por ser a mais longa que já fiz, percebi que a manutenção do seu corpo é algo essencial. Passei a valorizar cada minuto em uma cama confortável, em um ambiente que eu não precisasse estar alerta, passei a valorizar cada oportunidade que tive de comer um vegetal ou fruta, me alegrava muito mais em compartilhar essas atividade quotidianas e corriqueiras do que fazer alguma atividade tipicamente classificada como entretenimento.

Juan, meu anfitrião também era um amante de fotografia, me contou que por conta do controle de cambio do governo, ele tinha acesso a um determinado valor de dólares subsidiados (oficial) que não o alcançava para comprar uma câmera profissional, e como a circulação de dólares no país é restrita, há pessoas que pagam valores exorbitantes por divisas estrangeiras no câmbio negro, tornando praticamente impossível para a maioria do venezuelanos de importar o que for com a conversão não subsidiada. Mas apesar da limitação do aparelho, as fotos de Juan tinham uma sensibilidade no olhar, um cuidado no tratamento da imagem, uma personalidade, o dia que saímos para fotografar juntos, trocamos nossas câmeras e ele se saiu muito bem, se adaptou rápido ao meu aparelho e tirou algumas fotos muito boas.

 

 

Caminhando por uma das principais praças de Mérida presenciei um evento social e político muito interessante, o aniversário póstumo de Hugo Chávez. O PSUV aproveitava a ocasião para promover o atual presidente Nicolas Maduro com um entretenimento que parecia ter saído do programa do Ratinho, mas uma parte da população parecia realmente admirar a imagem de Chávez e idolatrar o governo do ex-presidente. As pessoas com quem convivi no país eram todas de classe média-alta e anti-Chavistas, mas a propaganda forte durante o governo personalista de Chavez, e um forte apelo populista, com benefícios sociais não vistos em nenhum outro país do mundo, deixou um grande legado de seguidores de seus pensamentos bolivarianos.

 

 

Uma das paisagens mais bonitas que vi na Venezuela foi próximo à Mérida, os Paramos me proporcionavam além de uma linda paisagem, piscinas naturalmente aquecidas com vista panorâmica do mural de fauna e flora que esperava a ser contemplado. Enquanto me banhava, o sentimento de gratidão tomava conta do meu corpo, me empenhava em registrar profundamente em minha memória cada detalhe da subita sensação que aquele instante me presenteou, ao mesmo tempo que não queria que acabasse, sabia que a efemeridade do momento é o que completava o sabor único da minha vivência.

 

 

Os lagos também são uma atração nas redondezas de Mérida, e foi visitando um deles que decidi me despedir da Venezuela, país que me proporcionou vivências inesquecíveis, um dos países mais bonitos que já visitei, tive meu primeiro contato com o mar do caribe, explorei o monte Roraima que compartilhamos entre três nações, e nas frias montanhas de Mérida, me despeço de você tão querida Venezuela, sou muito grato por todas essas sensações.

Destino Isla Margarita

Ouvi muitas histórias sobre a Isla Margarita, e acho que como todo mundo, sempre tive o sonho de poder ver de perto o mar do Caribe. Estava ainda no extremo sul da Venezuela, e uma viagem direto a ilha seria muito cansativa, decidi então que me pousaria uns dias em Puerto Ordaz, onde já teria adiantado metade do trajeto. O acesso à internet era limitado e muito difícil nos pequenos vilarejos indígenas onde me encontrava, em uma pequena cidade consegui me conectar e rapidamente combinei com uma garota em Puerto Ordaz, que me receberia na cidade.

Na mesa ao lado uma mulher professava o fim do mundo, gritava e acusava um sujeito oculto de todos os males de sua vida, talvez ela tivesse algo de razão, talvez fosse mais razoável que a maioria de nós que já aceitamos tudo como “normal”. Ela vestia trapos, os dentes, rugas, cicatrizes contavam um pouco de sua história, e eu estava lá, tinha comprado o que comer e um café para utilizar a internet do espaço, combinei de me encontrar com a minha anfitriã e fui embora, não compartilhei minha comida com aquela mulher, nem fui perguntar mais sobre o que ela tinha a dizer, acho que vivendo numa grande metrópole brasileira criei meu escudo de indiferença para me proteger, e é difícil baixar a guarda.

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Após seu trabalho Andreina passou para me buscar na estação com seu charmoso Fusca ouvindo Skrillex em alto-falantes portáteis, a gente já se deu bem de começo, entretanto parece que nossa comunicação anterior não havia sido tão boa assim. Fiquei em choque quando com sono, fome e todas as outras necessidades biológicas ao mesmo tempo, descobrir que na verdade minha anfitriã só poderia me receber para comer algo e me mostrar um pouco da cidade, não poderia passar a noite por lá, pois ela havia vivido algumas más experiências anteriores, e estava se reintroduzindo pouco à pouco na hospedagem solidária.

Ainda que em só uma tarde, ela me ajudou bastante, trocou meu dinheiro, me deu de comer, me levou para buscar toalhas, me apresentou um museu, quedas d’águas e parques, passamos na casa de sua amiga, e no mecânico para fazer um orçamento do conserto do carro, nossa, será que foi só uma tarde mesmo? Ainda usei a internet da sua casa e tirei um cochilo rápido, agora escrevendo esse parágrafo estou pensando nas tardes em que tudo que eu fiz foi rolar a barra de rolagem do facebook com a boca entreaberta e o reflexo da luz da tela no meu rosto ilustrando a penumbra de algum quarto úmido. Que merda, crack virtual.

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Na Venezuela a gasolina é subsidiada pelo governo, com alguns centavos se pode completar o tanque de um carro, por consequência os ônibus são muito baratos, não me dei nem ao trabalho de tentar uma carona, fomos tomar uma cerveja assim que caiu o dia, e as meninas me deixaram direto na estação de ônibus. Me dirigi à cidade portuária de onde saem os ferrys para a tão esperada Isla Margarita, cheguei mesmo antes dos caixas estarem abertos, então fui tomar um café e fumar uns cigarros com os estivadores enquanto esperava a chegada dos ferrys.

A travessia saiu um pouco cara, mesmo pegando o barco lento, mas já que estava lá, aproveitei meus 5 minutos de patrão, tomei um suco de laranja com o mindinho levantado na proa da embarcação com o vento que batia na minha sedosa (sebosa?) barba.

A música tocava alto, vinda de grandes alto falantes instalados por todo o ônibus, o ritmo do reggaeton dava cadência ao flerte dos adolescentes cheios de uma malandragem simpática no sorriso, depois de passar pelas Guianas, finalmente me sentia na América Latina. Eu tinha o nome de um bairro na cabeça, “El Tirano”, um nome não muito convidativo, porém lembrava que Jhonatan, o maluco de estrada que conheci quando estava cruzando a fronteira, me havia dito que lá podia encontrar um camping com banho quente e cozinha por menos de 3 reais, bom, esse é o tipo de informação que eu não esqueço.

O lugar era arrumadinho, nada de luxo, mas sem muito perrengue também, era um grande quintal de uma casa de família em uma pequena rua bem difícil de achar. Os personagens eram um grupo de jovens argentinos e uma chilena que viajavam fazendo malabarismo e macramê, um colombiano que já tinha morado na Brasil e fazia eco-bijuterias, um brasileiro gingueiro que fazia arte com palha, um velho vagabundo com muito orgulho que transmitia suas sabedoria de vida mundana, e eu chegando pra completar o circo. A convivência foi intensa, de amor e ódio, mas posso que dizer que em duas semanas formamos uma família, as forças de nossas diferenças entraram em equilíbrio pelo simples fatos de estarmos dispostos a viver juntos, errando e aprendendo com humildade.

Juarez, o brasileiro da arte de palha, precisava de algumas fotos para montar um catalogo com suas obras, assim poderia trabalhar sobre encomenda e carregar menos material na praia durante suas vendas. Eu me comprometi de ajuda-lo com a questão das fotos, e acabei ficando um pouco focado nesse tema durante a produção das imagens, ou seja, quase não tenho fotos de paisagem da ilha, o que por um lado acho interessante também, o registro do cotidiano, da beleza que não paramos para apreciar no dia a dia.

Espero que gostem, nos vemos nas montanhas de Mérida.

O Imponente Roraima

Cheguei em Boa Vista já com Couchsurfing para me receber, fiquei na casa de Marcia, e fui muito bem acolhido por sua irmã, mãe e namorado, que fizeram da minha estadia uma experiência bem agradável. Enquanto estava na cidade, conheci também Maercio, um empresário indígena que visitava a cidade por alguns insumos, e que me levou para conhecer alguns pontos turísticos de Roraima. Era época de copa de mundo, Brasil enfrentava a Colômbia, foi a segunda vez que assisti um jogo durante todo o evento, estava mais preocupado em organizar minha subida ao monte Roraima, e descansar meu corpo para o desafio que estava por vir.

Peguei carona até a cidade fronteiriça com a Venezuela, chamada Pacaraima, onde a policia federal brasileira faz um controle de travessia, o posto estava fechado, portanto só poderia cruzar a fronteira no dia seguinte. No caminho havia conhecido Jonathan, um maluco de estrada, e imaginei que ele pudesse me informar sobre algum lugar seguro para passar a noite, e de fato ele sabia, havia um lugar próximo aos banheiros da estação, que era uma área coberta e iluminada, onde havia espaço suficiente para montar minha barraca. Não muito longe havia um restaurante, onde me ofereci a lavar algumas louças em troca de comida, e acabei ganhando uma marmita do dono do restaurante, que nem aceitou meu trabalho em troca, compartilhei com meu novo colega de viagem e fomos dormir.

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No dia seguinte acordamos, e nos posicionamos do outro lado do controle de fronteira venezuelano à espera de uma carona. Conversando com Jonathan, venezuelano nativo e com muita experiência de estrada, ele me disse que caso quisesse chegar à base do Monte Roraima, onde começa a escalada, eu deveria pegar uma carona até San Francisco de Yuruaní, e de lá conseguir algum veículo 4×4 para poder continuar meu trajeto até Paraitepuy, último vilarejo indígena antes do início da escalada, local onde talvez fosse possível encontrar um guia local, fator obrigatório para a entrada no parque.

Passei uma noite em San Francisco, me despedi de Jonathan e fui em busca do meu guia e meu transporte 4×4, que eram oferecidos a preços bem fora do meu orçamento. Depois da fase de negação, veio a aceitação, percebi que teria que iniciar minha caminhada ali mesmo, antes de chegar na base da montanha, peguei minha coisas e comecei a subida de quase 30km, com todo o equipamento que eu levava e indo num ritmo tranquilo, demoraria quase o dia todo para chegar. Os carros 4×4 passavam repletos de turistas, que me observavam curiosos, caminhando todo o trajeto à pé, até o momento que avistei um desses carros que subia sem passageiros, fiz sinal de carona e ele parou, conversamos e disse que estava abastecendo o vilarejo com gêneros alimentícios, ele queria dinheiro para me levar, mas após mais alguns minutos de conversa acabou me fazendo esse favor de graça, agora só faltava conseguir um guia.

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Assim que cheguei em Paraitepuy, fui conversar com os guias oficiais, queria saber se não podia entrar em algum grupo já formado, por um preço mais acessível, o que não foi possível, mas eles me disseram que por ser uma terra indígena, eu estaria autorizado à entrar no parque, caso estivesse acompanhado de qualquer morador da aldeia. Achei então interessante ficar por alguns dias na base da montanha e me integrar mais à comunidade, assim conheceria mais de sua cultura e aumentaria minhas chances de conseguir um preço mais acessível por um guia.

Foi assim que conheci Christopher, um jovem alemão que assim como eu, estava viajando com pouca grana e também estava acampado em Paraitepuy, era um cara com um astral positivo, e decidimos fazer juntos a subida do Monte Roraima. Ele já tinha feito um contato em San Francisco, conversou com um guia e tinham um acordo de que ele viria no dia seguinte, faríamos o trajeto um pouco mais rápido que o convencional, 1 dia a menos em média, e nos cobraria um preço bem razoável.

Acordamos antes do nascer do sol, e esperamos o guia que nunca chegou por toda a manhã. Saímos perguntando aos locais sobre Tony, e tudo que nos diziam era que ele era uma pessoa pouco confiável, com problemas de alcoolismo e que provavelmente ele tinha bebido todo o dinheiro que o alemão havia adiantado para ele. Christopher confiava no acordo que tinha com ele, mas ainda assim decidiu regressar os 30km à pé e buscar pessoalmente o nosso guia no conforto do seu lar.

A caminhada começou sem muita confiança entre o grupo, mas mesmo assim no primeiro dia, conseguimos chegar de Paraitepuy até o acampamento na base da montanha. Como teríamos 1 dia a menos que os outro grupos, nosso objetivo estar no topo do Monte Roraima já no segundo dia, para poder melhor aproveitar nosso tempo, e visitar os pontos mais importantes da montanha. E foi o que aconteceu, chegamos ao topo, encontramos nosso “hotel”, assim denominados as cavernas no Monte onde se pode proteger de chuvas e ventos, e montamos nosso acampamento.

O acampamento no topo, nos servia de base para explorar pontos na montanha com paisagens estonteantes. Lá encima se caminha acima do nível das nuvens, o cenário parece de um filme de ficção científica, o chão em diversos pontos é coberto por cristais, e a fauna e flora são únicas e bem características do local. Visitamos a tríplice fronteira entre Venezuela, Guiana e Brasil, rios e cachoeiras se materializam e desaparecem de acordo com as intensas variações climáticas que se apresentam com alta frequência, em alguns minutos uma tempestade podia se formar, acompanhada de uma névoa que não te permite enxergar mais que um palmo diante dos seus olhos, um espetáculo da natureza.

Tudo estava se encaminhando bem, mas comecei a sentir uma certa ansiedade por parte do nosso guia, ele começava a querer fazer tudo rápido demais, acelerando o passo e tentando saltar tudo que ele tentava nos convencer de não ser interessante. Nos insistíamos em visitar pontos que estavam distantes do nosso acampamento base, e nosso guia resistia, até chegar ao ponto dele “lembrar” que era adventista, e que não poderia trabalhar no sábado, portanto teríamos que baixar no terceiro dia e fazer todo o caminho de volta em menos de um dia, o que nos negamos a fazer, pois afinal ainda havia muito o que explorar no topo da montanha.
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Voltamos ao nosso acampamento base, dormimos, e na manhã seguinte: SURPRESA! Nosso guia tinha nos abandonado, estávamos no topo do Monte Roraima, sem guia e com bem pouca comida. Christopher como todo alemão que se preza, tinha uma mapa do local, e chegamos ao consenso que se fossemos cautelosos, poderíamos explorar a montanha por nossa conta, afinal tudo que queríamos com um guia, era a autorização de entrar no parque, agora que já estávamos lá dentro, iriamos explorar por conta própria. Tomávamos o cuidado de nunca deixar a noite nos alcançar, e respeitávamos muito toda a imponência da natureza que se apresentava através da montanha e seu entorno. Nos perdemos algumas vezes, pensamos que nunca mais encontraríamos o acampamento, mas no final tudo deu certo.

O caminho de volta para Paraitepuy, apesar da ausência de necessidade, foi feito no mesmo ritmo da ida, eu estava com meu corpo bem fatigado, devido às extremas condições climáticas, esforço físico e alimentação insuficiente, mas o alemão tinha um maldito apito que fazia ensurdecedoramente soar toda vez que eu me sentava. Um dos guias que levava alguns turistas em direção à montanha, mandou seu grupo na frente, e parou para conversar conosco, fumamos um juntos e ele seguiu seu passo, nesse momento eu queria relaxar um pouco antes de recomeçar a viagem, mas meu colega do apito, com toda militarização intrínseca alemã, queria continuar, à ponto de pegar minha mochila e fazer uma parte do trajeto carregando as duas, isso eu até que gostei.

Já de volta à Paraitepuy, tiramos um dia de descanso, conseguimos um fogareiro no qual preparamos as melhores lentilhas que já comi na minha vida, e permitimos nossos corpos de se recuperar do impacto. Para continuar a viagem no dia seguinte, teríamos que baixar novamente à San Francisco, fizemos uma parte do caminho de 30km à pé até que conseguimos uma carona de volta à estrada. Em San Francisco comecei a me informar sobre os ônibus, afinal na Venezuela se pode encher o tanque de gasolina de um carro com apenas alguns centavos, devido ao subsidio de combustível fornecido pelo estado, algumas passagens são tão baratas que não vale a pena nem o tempo que se ficaria no sol por uma carona.

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Meu próximo destino em vista era a ilha caribenha, Isla Margarita, ao extremo norte no país, estava bem ansioso para conhecer o local, nunca havia estado no Caribe antes, a distancia era longa, então provavelmente faria uma parada em Puerto Ordaz, onde já tinha um contato para passar umas noites, mas essa história vai ficar pra próxima publicação.

Uma experiência além dos sentidos

Conheci uma garota pela internet, que disse que poderia me hospedar em Georgetown, quando pedi seu número de telefone recebi também as instruções de não telefonar, somente mandar mensagens. Achei algo estranho mas como o contato havia sido feito por um site confiável, resolvi aceitar o pouso em sua casa.

Havia saído com pressa do Suriname devido à divergências de valores com meu último anfitrião, e não haviam balsas para cruzar o rio nesse dia, decidi então voltar alguns quilômetros na estrada, até o último grande cruzamento, onde lembrava haver visto um pequeno restaurante. Fiz sinal de carona e um carro parou, o motorista já me ofereceu uma cerveja quente e começou a conversar, contei um pouco da minha história nos últimos dias, e ele disse que ao invés de me levar ao cruzamento, me levaria a uma casa que ele tinha construído ali perto, dentro de uma plantação, não tinha energia elétrica, mas serviria para passar a noite.

Paramos o carro onde parecia ser o ponto mais próximo que a estrada chegava e entramos na plantação. O acesso era bem difícil, e com as mochilas pesadas mais ainda, pequenas pontes improvisadas com apenas um tronco fino desafiavam meu equilíbrio, depois que chegamos pude perceber que a precária construção não me protegeria nem de uma leve garoa, decidi então voltar e acampar no alpendre do pequeno restaurante na beira da estrada.

Chamei com o dono do restaurante, disse que eu era um viajante e perguntei se poderia passar uma noite acampado em seu alpendre, ele disse que sim, me serviu uns sanduíches de manteiga de amendoim e refrigerante, e ainda ofereceu sua filha para dormir comigo, revelando um pouco sobre a sutileza do humor guianês. Mais tarde um senhor holandês passou com sua esposa e me contou de suas aventuras e viagens quando jovem, conversamos por horas, na saída ele ainda deixou pago um café da manhã para o dia manhã seguinte, o que alegrou ainda mais meu dia.

Na manhã seguinte peguei a balsa, e consegui carona com Ailton, um brasileiro que mora na Guiana há muitos anos, ele se dispôs a me deixar exatamente onde havia combinado com a garota que me receberia na cidade. Chegando às proximidades enviei algumas mensagens, pois não havíamos encontrado o endereço exato, com a ausência de respostas, decidi telefonar, apesar da recomendação de não faze-lo. A comunicação foi bem difícil, comecei a pensar que talvez ela tivesse alguma deficiência auditiva, mas ainda assim conseguimos combinar os detalhes do nosso encontro.

O brasileiro não só me deixou no local, como também ficou esperando que a garota chegasse, achava estranho toda essa história de conhecer pela internet. Avistei uma pessoa parecida com a das fotos e ele ficou mais tranquilo, me despedi do meu compatriota e desci do carro. A minha anfitriã me cumprimentou e logo começamos a conversar, depois de alguns minutos de papo rolando, contei pra ela que tinha achado estranho o fato dela pedir para que entrasse em contato por mensagem e cheguei a pensar que ela era surda, e para o meu desconforto, ela disse que sim, não completamente, mas tinha algo como 10% da audição eu um dos ouvidos. Me senti um pouco incômodo pela indelicadeza como toquei no assunto, mas ela era muito bem resolvida, e parecia estar a vontade em falar disso.

Me contou que sua família tinha boas condições financeiras e que observaram logo cedo o comportamento diferente das outras crianças, e que assim que identificaram sua débil audição, a colocaram em fonoaudiólogos, e incentivaram o estudo de linguagem de sinais, e que agora ela estava trabalhando na Guiana para difundir esse conhecimento para professores e alunos de baixa renda no país.

Sempre que fico na casa de alguém, tento de alguma maneira, muitas vezes não material, retribuir a gentileza da pessoa ter me hospedado. Minha anfitriã comentou que tinha poucas, e não muito boas, fotos de sua atuação como professora, e que seria interessante ter um registro de seu trabalho como recordação pessoal e também como material para dar um feedback para a instituição que ela estava representado no país. A sugestão era que eu acompanhasse e registrasse uma de suas aulas, uma honra para mim, já era algo que eu tinha interesse em fazer, aceitei sem hesitar.


Fotografar a aula foi uma experiência maravilhosa, a sala era composta com algumas pessoas com deficiência auditiva e profissionais da área da educação, como professoras, que gostariam de melhorar suas habilidades de comunicação, e tornar a sala de aula um ambiente mais acessível. Os alunos foram muito receptivos, foi uma relação bem gostosa, no fim do dia ainda saímos com alguns para tomar umas cervejas e conversar.

Alguns dias depois minha anfitriã me colocou em contato com uma garota da Hungria que estava buscando companhia para visitar o país, tínhamos um plano de viagem muito parecido, e ela se animou com a ideia de visitar o monte Roraima, então decidimos nos juntar. Como o namorado da minha anfitriã estava para chegar, e acreditando que eles gostariam de um pouco de privacidade, achei uma boa ideia perguntar sobre hospedagens solidarias à húngara, que já me conseguiu pousada em outra casa no mesmo dia.

Juntos visitamos pequenos vilarejos próximos à capital Georgetown, mas por uma questão de logística com suas passagens aéreas acabamos nos separando antes cruzar a fronteira com o Brasil, sentido Boa Vista. Ela foi de avião, e eu, tentando conseguir carona com os caminhões de minério, ganhei de um dos garimpeiros uma passagem numa van 4×4 Off-Road destino à capital de Roraima.

O mosaico Surinameso

Chegando na fronteira com o Suriname, tive alguns imprevisto por uma confusão de carimbos no passaporte, a ausência da saída da Guayana Francesa, uma vez que eu não tinha dado nem a entrada, acarretaria numa alta multa, que eu não estava disposto a pagar., fiquei algumas horas conversando com o agente alfandegário, que no final acabou me deixando passar por cansaço.

Eu já tinha um contato de uma pessoa que me receberia em Paramaribo, capital do Suriname, portanto o ideal seria encontrar uma carona que me deixasse diretamente na cidade. Havia por volta de 150km entre onde estava e meu destino, distância curta para se fazer em uma tarde, com um pouco de sorte conseguiria chegar ao meu destino antes do anoitecer.

Me posicionei na estrada que leva à capital do país e mais uma vez, estiquei meu dedão. Pra minha surpresa o primeiro carro que passava parou, e para minha surpresa novamente, ele queria me cobrar um alto valor para me levar, assim como o segundo, terceiro, quarto, quinto carro…. Descobri então que a maioria dos automóveis no Suriname, se convertem instantaneamente em um taxi quando avistam um estrangeiro. Apesar de querer chegar antes do anoitecer, não tinha nenhum compromisso que tornasse minha chegada absolutamente necessária, se tivesse que passar a noite na beira na estrada, não seria a primeira nem a última vez que isso aconteceria, sendo assim, sem pressa, resolvi esperar por uma carona.

Algumas pessoas que moravam na região me observavam de longe, e alguns chegaram até a se aproximar para me desencorajar de continuar esperando, mas eu estava tranquilo e continuei com meu polegar firme e forte. Depois de algumas horas passou um caminhão e gritou da janela que faria uma entrega e depois voltaria para me recolher, eu nem dei muita atenção, e continuei meu ofício de caroneiro. Mas não é que o cara voltou, passamos em um porto para deixar umas mercadorias, comemos algumas besteiras e caímos na estrada novamente.

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Chegamos em Paramaribo já de madrugada, e fiquei pelo centro da cidade, tinha o telefone e o endereço do meu host, um filipino que morava no Suriname havia algum tempo , com um telefone telefone emprestado, tentei sem muito êxito entrar em contato com meu anfitrião, foi então que decidi ir até o tal endereço e tocar a campainha, caso não rolasse acamparia por perto, e esperaria o nascer do sol.

Cheguei meio de surpresa, um dia antes de ter avisado e já de madrugada, mesmo assim ele me aceitou, mas numa posição de como se estivesse fazendo o maior favor que eu já havia recebido na vida, as vezes o sistema de hospedagem solidária tem dessas, ao mesmo tempo que pode ser uma experiência engrandecedora para sua viagem, muitas vezes temos que lidar com peculiaridades e manias de quem nos está hospedando, afinal estamos “invadindo” seu espaço privado, e temos que respeitar certos limites. Como minha chegada tinha ajudado muito, pensei que em algum tempo, após esse impacto inicial, as coisas melhorariam.

O studio no qual ele morava era maravilhoso, moderno com uma decoração rústica, todos os serviços incluídos, quase um hotel. Na manhã do dia seguinte ele saiu pra trabalhar cedo, o colchão bloqueava a porta do apartamento de um cômodo, me levantei para que ele pudesse sair, mas com o cansaço da viagem, decidi que não sairia pra conhecer a cidade tão cedo e logo voltei a dormir. Algumas horas mais tarde me levantei, fiz um pouco de yoga, e um ronco no meu estômago me trouxe à mente a ideia de ir buscar algo para comer. Troquei de roupa, peguei o que precisava e quando fui sair do quarto, surpresa, a porta estava trancada, o filipino me tinha em um cárcere privado. Uma sensação horrível tomou conta de mim, já tinha ficado trancado para fora, o que eu até prefiro, mas nunca dentro de algum lugar.

Fiquei esperando angustiantes horas o seu retorno, ouço o barulho de atrito metálico do outro lado da porta, enquanto isso controlava meus pensamentos para não disparar sobre ele todos meus cortantes pensamentos sobre o que havia acontecido, os segundos que ele deve ter tardado para entrar no quarto pareciam uma eternidade. Quando ele enfim entrou, trazendo consigo duas marmitas em suas mãos, tivemos uma discussão sobre que havia acontecido, e sobre qual deveria ser o tipo de relação entre pessoas que utilizam da hospedagem solidária para viajar, ele sempre se colocando na posição de vitima e pintando minha imagem como uma pessoa ingrata, que não reconhecia tudo que ele havia feito por mim, de fato ele tentava ser gentil à sua maneira, mas minha liberdade e direito de ir e vir, são um preço muito alto que eu não iria pagar.

Chegamos à um acordo, e ele não me trancaria mais no seu quarto, acordo o qual ele cumpriu no dias seguintes. Um dos pontos que ele colocou em discussão, é que ele gostaria de que eu fizesse parte das suas atividades socais, algo que pra mim seria muito agradável, e que geralmente acontece de maneira natural com outros anfitriões, não seria um esforço para mim. Saímos para caminhar durante o dia, e o que mais me chamava atenção na cidade era a mistura de referências arquitetônicas. A diversidade e complexidade da sua população  criava um cenário muito rico visualmente, indianos, paquistaneses, eurafricanos, ameríndios e chineses trouxeram cada um, um pouco de sua cultura e formaram esse mosaico que é o Suriname.

Já de noite meu anfitrião comentou que haveria a inauguração de um hotel de luxo na cidade, e a possibilidade de um boca livre me animou bastante, então ficamos combinados de fazer esse role. Vesti meu melhor traje de gala, uma camiseta de “marca”, fabricada na china, que eu tinha comprado em uma loja de pequenos defeitos por 20 reais, e um bermudão bege e fomos ao tão esperado evento. Aprendi nesses tempos de estrada, que se adequar à algum ambiente não se trata de uma questão de aparência, mas sim de postura e confiança, me dirigi a hostess na entrada, e disse que estava ali pela inauguração do hotel, e que havia recebido um convite em meu domicílio, com um sorriso no rosto ela nos acompanhou até o elevador que nos levaria ao terraço onde o evento estava acontecendo.

Chegamos e todos estavam de terno e vestidos longos sociais, falei pro meu anfitrião incorporar um personagem, se estivéssemos seguros o suficiente do que estávamos fazendo as pessoas pensariam que éramos artistas, jornalistas, ou alguma personalidade excêntrica do Suriname, acho que nossa aparência obviamente estrangeira ajudou bastante, a ponto de que até mesmo o organizador do evento veio a nossa mesa nos cumprimentar e perguntar se estávamos disfrutando do evento, com muita simpatia e sinceridade, eu agradeci por tudo, e proferi alguns elogios ao buffet que servia um delicioso jantar.

suriname
A festa durou algumas horas, ainda era cedo e decidimos sair em busca de mais diversão, passamos em um estabelecimento já conhecido por meu colega, e ele decidiu pedir um café e algo para comer, eu que era mais cara de pau já tinha me empanturrado na festa, e decidi assistir uns malabaristas que faziam um show de pirotecnia na rua, em troca de alguns trocados. Me aproximei, fiquei assistindo, e depois fui conversar com eles para saber se eles conheciam algum lugar com música, ou algo para fazer naquela noite, eles comentaram que havia uma festa a alguns quarteirões dali, e que eu podia ir com eles, eu disse que estava com um colega e que voltaria para avisa-lo, eles me explicaram mais ou menos como chegar, disse então que logo os encontraria.

Quando voltei ao restaurante, meu anfitrião já observava a cena de longe, e antes mesmo de eu propor de irmos a festa, ele me fuzilou com uma onda de críticas por haver falado com aqueles artistas de rua, ele tentava me convencer que aquelas pessoas eram perigosas, e que eu não deveria falar com esse “tipo de pessoa”, pediu a opinião do dono do estabelecimento, que começou a proferir um onda de preconceitos baseado na cor da pele daqueles artistas, a discussão começou a esquentar,, e eu comecei a me exaltar, não tolerava a quantidade de absurdos que saiam da boca daquelas duas pessoas, foi ofensivo, senti aquela violência me atingindo, e naquele momento decidi que não iria ficar mais hospedado na casa daquele racista. Fui pra festa, encontrei os artistas de rua, tomamos algumas cervejas, aproveitamos a música, pelo amanhecer peguei minhas coisas e fui embora.

É, no fim das contas não foi somente pela minha chegada inesperada que nossa relação não sincronizava, era uma divergência de valores muito forte, talvez na Guiana Inglesa eu tivesse mais sorte.

St. Laurent du Maroni

No caminho de Saint Laurent aconteceu algo que eu nem sei se posso chamar de coincidência, estava esperando uma carona na beira da estrada que demorava para chegar, e via os carros passando, uns carros de luxo em alta velocidade, e comecei a pensar que quanto mais dinheiro as pessoas tinham, mas egoístas elas eram, que nunca um carro desses ia parar e me levar. Não deu nem 5 minutos e um carro esportivo, não sei a marca, mas um desses de só dois lugares que deve custar algumas centenas de milhares, parou e perguntou para onde eu estava indo, e no caso, nós dois estávamos indo para Saint Laurent du Maroni.

Subi no carro, e lembrei o quão simplista e superficial é generalizar as pessoas por alguma característica que possuem, isso é preguiça intelectual e emocional, fica mais fácil etiquetar as pessoas com conceitos pré-definidos de nossos limitados horizontes, do que se abrir para conhecer o indivíduo e expor nossas profundas intimidades, para que haja cumplicidade e confiança, e assim então gerar uma vivencia de troca de experiências e aprendizado. Tal convivência rompe paradigmas, obriga nossa mente a fazer novas conexões nos deixa mais sensível. Viver de certezas e preconceitos enrijece e emburrece a mente.

Fomos trocando uma ideia, ele, argeliano, morava na Guyanne e trabalhava com publicidade, não gostava do que fazia e tinha consciência do efeito, nem sempre positivo, do seu trabalho na vida das pessoas. Era um cara pragmático que estava disposto à negligenciar alguns de seus valores em troca dos benefícios que o dinheiro pode proporcionar, não o julgo, o sistema é foda.

Paramos por um suco e comentei que ficaria na casa de um brasileiro, Alessandro, ele disse que conhecia um brasileiro na cidade, e descrevendo sua família e por algumas fotos que eu já havia visto dele, chegamos ao consenso de que falávamos da mesma pessoa. Ele ficou empolgado com essa história e falo que me levaria direto na casa do Alessandro, assim já aproveitaria para visitar um velho amigo.

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Assim que estacionamos o carro, fomos recebidos com toda a calidez latina, um gritando o nome do outro até o instante em que Alessandro surge em meio à uma parede vive de arbustos e consuma nosso encontro com um abraço. A família dele foi maravilhosa comigo, sua esposa, sua duas lindas filhas, se eu ficasse aqui descrevendo tudo que eles fizeram por mim os dias em que eu fiquei sua residência, não ia sobrar mais espaço aqui no post, mas em resumo, eu ia ficar uma semana e fiquei um mês e meio por lá.

Tem algumas questões que chamaram minha atenção na Guyanne como um todo, mas em especial em Saint-Laurent, uma delas é a diversidade racial e cultural, mesmo na casa em que eu estava ,morava o brasileiro, sua esposa do Suriname suas filhas da D e um amigo da França. A quantidade de idiomas falados pela sociedade guianense é imensa, oficialmente se fala o Crioulo da Guiana Francesa, que é baseado no francês, inglês, português, espanhol e outros dialetos africanos e ameríndios, mas também pode-se encontrar seis línguas ameríndias, quatro dialetos quilombolas, hmong, português, hakka (um dialeto chinês), crioulo haitiano, espanhol, holandês e inglês.

Toda essa miscigenação me fascinava, e os ambientes que mais expressavam essa interculturalidade eram os que mais me chamavam a atenção. Quem acompanha o Blog sabe da minha paixão pelos mercados populares, quando me dei conta, estava passando horas diárias nas feiras livres da cidade, só para observar a dinâmica de convivência entre essas pessoas e me alimentar de todas aquelas referências antropológicas.

Caminhar pela beira do rio e observar o Suriname do outro lado também alimentava muito minha imaginação, e de uma maneira positiva em relação ao que estaria por vir, ao mesmo tempo as incertezas se apresentavam em forma de ansiedade, que eu tratava transformar em pinturas de luz através das minhas lentes.

Outro evento interessante durante a minha estadia foi o Art Pasi Festival, realizado por jovens franceses que moram na Guyanne, a intenção era promover a integração cultural europeia, com as tradições e expressões artísticas locais. Havia música, dança, teatro, gastronomia e as mais variadas intervenções artísticas, fiquei muito feliz em haver participado de tal evento. Aproveitei essa oportunidade para preparar uns brigadeiros e fazer uma graninha durante o festival, algo que não requer um nível de conhecimento gastronômico muito elevado e acaba sendo uma atividade social, uma maneira diferente de entrar em contato com as pessoas.

Já havia decidido que depois do Art Pasi eu cruzaria o rio sentido Suriname, e foi o que eu fiz, à bordo de um tradicional “pirogue”, nos primeiros cinco minutos que entrei no país já me meti num B.O., mas isso é assunto para o próximo post.

 

Une partie de la France en Amérique Latine

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Caiena, a capital da Guayana, é bem diferente da maioria das outras cidades do país, suas pequenas e organizadas ruas, se assemelham a algumas cidades europeias, e ao mesmo tempo Caiena tem algo de provincial, detalhes que lembram cidades do interior do Brasil, como o fato de o centro da cidade estar posicionado ao redor de uma praça, uma linda praça decorada com imponentes palmeiras, onde durante o dia, é o principal espaço público de convívio social para quem mora no país.

 

Assim que cheguei entrei em contato com Renaud, um francês que já morou no Brasil, participou como agrônomo de projetos sociais do MST, e atualmente está vivendo em Caiena. Uma pessoa extremamente inteligente e engajada, que me recebeu de braços abertos e me ajudou com minha ambientação e adaptação à cultura local.

Minha ideia era passar um tempo em Caiena para melhorar meu francês, e quem sabe conseguir algum trabalho por lá, para isso Renaud me emprestou sua bicicleta, com a qual rodava a cidade, distribuía currículos e tentava absorver mais informações sobre a dinâmica do país.

Nesses dias em que buscava emprego, conheci muitos lugares interessantes da cidade, o que vou escrever aqui para vocês vai soar um pouco mórbido, mas um dos lugares mais interessantes pelo qual passei, foi o cemitério de Caiena, o local um estilo gótico, repleto de esculturas e túmulos extravagantes, o que torna a visita interessante e curiosa.

As praias não são das mais interessantes, o gigantesco volume de água que desemboca no oceano vindo do rio amazonas, afeta a coloração do mar guianês, o deixando com uma coloração amarronzada e trazendo consigo muito lodo dependendo da época do ano. A experiência de se banhar nas praias guianesas é algo que eu poderia classificar como uma experiência sensorial, suas pernas vão afundando no lodo, chegando até o nível da cintura, e a água é salobre pela diluição causada pelo rio Amazonas, vale a experiência.

Um passeio que não pode ser perdido, é visitar as praias durante a madrugada, em algumas épocas se pode avistar tartarugas marinhas de mais de 2 metros de cumprimentos vindo desovar na praia, é um espetáculo da natureza, uma coisa linda de se ver, eu sentei na areia, a uma distancia de poucos centímetros e acompanhei todo o processo de perto, foi uma sensação maravilhosa de sintonia com a natureza.

Passei alguns meses por lá, e com o tempo fui percebendo que apesar do idioma e dos euros que circulavam, o fato era que estávamos na América Latina, e não na Europa. Diferente do Brasil, onde pobreza e riqueza extrema vivem lado a lado, na Guayana isso está mais segregado, a periferia fica na periferia, por debaixo daquela camada de maquilagem europeia, se esconde também muita miséria, muitos imigrantes ilegais, em grande parte brasileiros que vem atraídos pelos salários mínimos de 1200 euros, e que logo tem seus sonhos mutilados pela alta taxa de desemprego e preconceitos que sofrem por suas origens.

O país depende de subsídios da França, na verdade nem podemos chamar Guayana de país, o termo correto é Territoire d’outre-mer (território ultramarino), uma terminologia rebuscada para colônias modernas, mas não pensem que os guianeses querem independência, a França mantém funcionários públicos no país com salários 60% acima da média da própria França, e atualmente tem mais gastos do que benefícios para o país.

Outra curiosidade sobre a Guayana é o fato de que o país serve como centros dos projetos espaciais franceses, na cidade de Kourou se encontra uma base de lançamento de foguetes, atualmente muito utilizada pela Agência Espacial Europeia.

Apesar do sonho de sempre tive de morar por um tempo na Guayana, pouco a pouco fui sentindo que ali não era meu lugar, e cada vez mais a estrada começava a me chamar, Ana Paula, uma amiga paulista que conheci em Macapá, já me havia passado o contato de um brasileiro que morava em Saint Laurent, na fronteira com o Suriname, e logo decidi que era hora de esticar o dedo, e entrar em movimento outra vez.

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Do Chuí ao Oiapoque

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Chegar a última cidade ao extremo norte do Brasil não é uma tarefa fácil, e dependendo da época do ano, próximo a estação de chuvas pode ser um grande desafio que beira a insensatez, diversas empresas deixam de fazer suas entregas por conta das condições da estrada, porém alguns destemidos caminhoneiros não se importam com a adversidade, ao contrario, se orgulham e exibem fotos em seus celulares da estrada de barro que mais parece um pântano ou um garimpo, cheio de buracos na terra, completamente alagada. Apesar das dificuldades eu não deixaria de tentar, se existem caminhões cruzando, algum poderia me levar.

 

E não foi muito diferente do que eu pensei, depois de algum tentando, um caminhão parou disposto a me levar. Dirigimos por várias horas, e avançamos poucos quilômetros, íamos devagar quase parando, enroscando em um buraco atrás do outro, até o momento que atolamos de verdade. Foi necessário descer, montar alavancas com as ferramentas que tínhamos disponíveis como correntes, troncos, tábuas e no sufoco tiramos o caminhão do atoleiro, avançamos mais alguns poucos quilômetros em mais algumas muitas horas e chegamos a uma ponte quebrada, diversos caminhoneiros aguardavam a liberação da ponte, como minha carona só iria até esse ponto da estrada, comecei a sondar novas possibilidades.

 

Um a um fui conversando com todos os caminhoneiros que ali encontrei, alguns simpáticos, outros nem tanto, alguns curiosos, outro indiferentes, cada um com sua maneira de reagir ao meu pedido. Há um tempo atrás, eu ficaria puto com as respostas agressivas que recebi de alguns, hoje em dia tento entender a fase de evolução espiritual de cada ser, e apesar de difícil, evito julgar a maneira de ser de cada um, pois desconheço suas historias, suas lutas e suas glórias, cada pequeno acontecimento em suas vidas o levaram a ser quem é hoje, agradeço e sorrio, muitas vezes esse pequeno detalhe fez com que pessoas mal encaradas mudassem de ideia ou buscassem me ajudar de alguma outra maneira.

 

Me aproximei de um grupo jovem, todos entre 25-40 anos, com aparência de terem vindo de cidade grande, puxei assunto e eles retribuíram, perguntaram muito sobre minha viagem e sobre fotografia, eles também, apesar de não ser um trabalho artísticos, utilizam a fotografia em suas profissões, eram fiscais da estrada, registravam todas as imperfeições e problemas no trecho (mais fácil seria registrar as conformidades, não tomaria muito tempo), comentei sobre minha necessidade de carona e disseram que eu precisaria conversar com a chefe, que era uma mulher e a mais nova do grupo, ela acabou dizendo que também já foi mochileira, mas que todo o grupo que estava com ela tinha um seguro de vida pela empresa, e que não poderia me levar correndo esse risco de eu não estar assegurado, como de costume sorri e agradeci, acabei ganhando um kit de lanche com sanduiche, salada de fruta, suco e sobremesa, já valeu o sorriso.

 

Depois de mais uma sondagem acabei encontrando um caminhoneiro que estava com um amigo, disse que sim poderia me levar, tinha recebidos tantos nãos que como reflexo sai andando sem nem perceber que a resposta havia sido positiva, voltei e confirmei a dúvida, e ele disse que sim de novo sem hesitar nem fazer muitas perguntas, na camaradagem mesmo. Subi no caminhão e no trajeto ele foi me contando que essa era a parte mais complicada da estrada, e sem muita demora, atolamos. Mas dessa vez a parada foi nervosa, caímos numa valeta e tínhamos toda a parte de baixo do caminhão encostada no chão, nem com alavanca e muita gambiarra pudemos tirar o caminhão da vala. Nos sentamos no barro para pensar em que fazer, já estávamos coberto por ele mesmo, e foi nesse intervalo de tempo que surgiu nossa esperança. Aquele grupo de fotógrafos que fazia a vistoria da estrada apreceu, passaram por nós com uma 4×4 e como haviam visto que estávamos com dificuldade no atoleiro, decidiram regressar para ver se tudo andava bem, bendita hora.

 

 

Atamos o caminhão à 4×4 utilizando correntes, e em poucos minutos estávamos fora do atoleiro. Esse não seria o último nem as condições da estrada melhorariam, mas pouco à pouco fomos avançando até alcançar nosso destino: Oiapoque. Lá estava eu, completando minha utôpia dos tempos de aula de geografia no ensino fundamental, de conhecer o Brasil de Oiapoque ao Chuí, que visitei quando viajei pelo sul do país. Alguns dias anteriores havia entrado em contato com alguns Couchsurfers que não responderam minhas solicitações, a grana não estava sobrando e não rolava pagar pousadas de 40 reais dentro do meu orçamento. Foi quando eu lembrei que o André, que conheci em Macapá, havia comentado que tinha uma amiga no Oiapoque, fui a uma lan house e afortunadamente o encontrei online, em poucos minutos ele tinha conversado com a amiga, e me passou o endereço de seu trabalho para que a encontrara.

 

O endereço era de uma instituição indigenista chamada IEPÉ, assim que cheguei conheci Poena, que me receberia em sua casa, e também Ana, uma paulistana que já mora há vários anos no Oiapoque. Conversamos um poucos, foram bem simpáticas desde o inicio, organizamos a cronologia do dia incluindo me acomodar, me apresentar o trabalho do IEPÉ, visitar um lindo lago e ainda terminar em uma festinha na casa de uns amigos, com direito à um delicioso bacalhau, vinho e skunk que não via desde meus tempos de Madrid.

 

 

 

Tudo fluiu muito gostoso, a galera curtia boa música, apreciava arte, festa, eram todos educados e inteligentes, além de muito receptivos, me senti como se estivera com velhos amigos, a única parte ruim de conhecer essa galera, foi ter que me despedir deles. Poena, que me estava recebendo em sua casa tinha uma amizade muito forte com um francês, que morava do outro lado do rio, na primeira cidade da Guiana Francesa, Saint Georges de L’Oyapoque. Ele tinha uma linda filha com uma brasileira, que falava muito bem os dois idiomas, francês e português, com apenas 6 anos, um doce de menina, durante meus dias na casa de Poena conversei muito com o francês, e me dei muito bem com sua filha também, e por gentileza ou afinidade ele acabou me convidando para dormir um dia em sua casa do outro lado do rio, para descansar antes de conseguir uma carona para Cayenne, a capital.

 

 

Me despedi de meus amigos de Oiapoque e cruzei o rio, desde o início ele me ajudou com as burocracias de vistos, selos, tomamos algumas cervejas, fumamos tabaco e assistimos o documentário do Manu Chao em sua turnê pela américa latina. Nesse período já fazia alguns dias que eu estava com algumas irritações na pele, qualquer pequeno arranhão se transformava em uma grande ferida, comecei a ficar preocupado pois elas só aumentavam, como ele é um enfermeiro experiente decidi perguntar o que achava daquilo, ele bateu o olho e reconheceu o Staphilococus, parece que é algo bem recorrente na região, me disse o nome de algumas pomadas e antibióticos que eu deveria tomar, não lembro os nomes mas lembro que eram bem caros, ia causar um rombo no meu orçamento, mas conversando com minha irmã que estuda medicina, e outro profissionais da saúde, todos recomendaram seguir o tratamento, necessitava encontrar uma alternativa para conseguir aqueles remédios.

 

Comentando sobre a situação com o francês, ele se propôs a me ajudar, pelo seu trabalho tinha um seguro de saúde que cobria esses medicamentos, e disse que talvez conseguisse se passar por paciente para obter o direito de retirar os medicamentos, e foi o que ele fez, no dia seguinte já tinha todos os remédios e as instruções de uso. Depois disso ele se sentiu mais tranquilo para me levar a um ponto na estrada onde poderia conseguir uma carona mais fácil, e ficou lá até algum carro parar, outra linda alma que cruzou o meu caminho. Agora já estava tudo encaminhado para chegar à capital da Guiana Francesa, Cayenne, onde tinha planos de ficar alguns meses e juntar alguns euros, mas acho que vou deixar essa história para o próximo post.

 

Nosso Amapazão

Deixei Santarém por vias fluviais, mais uma vez fui encarar o rio Amazonas nas embarcações tradicionais da região. Deitado em minha rede aproveitei para terminar alguns livros que tinha deixado de lado, e ouvir um pouco de música em francês, afinal a Guiana estava próxima e precisava desenrolar meu “parler français”. O porto que seria em Macapá, descobri na verdade não ser em Macapá, o barco ancorou em Santana e passei a madrugada nele antes de sair vagando em um lugar desconhecido noite afora (aprendi minha lição em Manaus). Pela manhã me despedi de um dos membros da tripulação, meu parceiro de café, cigarro e insônia, que infelizmente por incompetência e/ou procrastinação não anotei seu nome no caderno, comi alguma besteira em um boteco na beira do cais e em seguida iniciei minha busca por uma alma caridosa disposta a telefonar para Maíra, meu contato na cidade. Parei em uma loja de artigos para panificação e depois de hesitar por um momento, a atendente da loja acabou realizando a chamada

 

Apesar das informações extremamente precisas que Maíra me passou, resolvi confiar em um cobrador que não sabia para onde eu estava indo, e consegui descer no ponto errado do ônibus, o que me resultou numa caminhada de quase uma hora num sol escaldante dos trópicos, com minhas mochilas que nem vou comentar quanto pesam para não parecer idiota. Enfim cheguei na casa e fui recebido com água gelada e uma vela comemorativa, uma excelente recepção que criou uma empatia quase que instantânea com meus novos anfitriões.

 

 

Maira, Eduardo e Luiz, assim se chamavam eles, jovens veterinários trabalhando para Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) perdidos no Amapá, quase todos os dias planejávamos visitar algum ponto turístico do estado, mas terminávamos em alguma festa, ou “passeios” como gostava de defini-los Luiz. Mas minha estadia também teve seu lado cultural, visitamos Masagão uma cidade histórica que fica à poucos quilômetros de Macapá, fomos ao museu Sacaca que é um espaço bem aproveitado com exposições, música e comida tradicional, visitei o marco zero e bati um rango no bandejão da federal como de costume, mas acredito que o ponto alto foi a visita ao Curiaú, uma comunidade quilombola que fica bem próxima à cidade. Tive muita sorte pois cheguei na época em que estava sendo realizada uma das festas mais tradicionais, o Marabaixo, tive a oportunidade de participar de suas danças ancestrais e de provar a famosa gengibirra, uma bebida feita a base de aguardente e gengibre que além de deliciosa é um poderoso combustível para manter os corpos dançantes até o nascer do sol.

 

No último dia, mesmo virados de uma festa “Dark”, ainda tivemos disposição para visitar a ilha de Santana, um lugar lindo que se eu não estivesse de ressaca, todo sujo de lama por escorregar e cair no mangue e morrendo de sono, teria aproveitado mais ao invés de passar o dia jogado na areia. Me diverti muito em Macapá, quase não produzi material fotográfico e escrito, mas quem se importa.

 

 

Assim como na minha chegada, detalhes embelezaram minha partida , Eduardo me deixou de carro em posto de gasolina na saída da cidade e Maíra cozinhou algumas pupunhas para que eu comesse no caminho. Havia conversado muito com meus anfitriões sobre qual poderia ser meu próximo destino no estado, decidi que não poderia deixar de ver o sítio arqueológico que ficava em uma cidade chamada Calçoene, metade do caminho para o Oiapoque, o tal sítio era conhecido por ser o Stonehenge brasileiro, o acesso pelas estradas de terra parecia ser bem difícil e toda a informação que eu tinha para chegar no local era um nome: Seu Garrafinha, o guarda parque, ainda assim estava muito animado com a possibilidade.

 

Com relação a carona para Calçoene tive muita sorte, o primeiro motorista com quem falei ia diretamente para a cidade, eu estava um pouco cansado e acabei dormindo todo o caminho, não conversamos muito mas pelas poucas palavras que trocamos soube que ele era vendedor. Assim que chegamos ao nosso destino estacionamos em uma pequena vendinha para deixar algumas de suas mercadorias, aproveitei esse intervalo para perguntar se alguém conhecia o Seu Garrafinha, e surpreendentemente sim, pela maneira como me responderam me soou como algo óbvio, subentendido na pergunta, ele parecia ser uma entidade ou figura ilustre na cidade, um dos rapazes com os quais conversava disse que tinha uma moto e que me deixaria em frente a sua casa, não muito longe de onde estávamos, agradeci ao motorista do carro pela carona e me despedi.

 

Cheguei na casa de Leilson Carmelo da Silva, vulgo Seu Garrafinha, me apresentei, e fui recebido como um velho amigo, sua esposa Dona Nilza me serviu um delicioso cafezinho, o qual ela se gaba por manter sempre fresco e a disposição de qualquer visita que queira ter uma boa tarde de conversas em companhia do casal. Seu Garrafinha foi a primeira pessoa a descobrir o conjunto de pedras conhecido hoje como o Stonehenge brasileiro, logo percebeu que aquele agrupamento rochoso poderia ter algum valor histórico, na época ele trabalhava para um fazendeiro que simplesmente ordenou que toda a área fosse derrubada e queimada para a criação de gado, percebendo que tais rochas teriam um valor muito maior do que o estimado pelo proprietário da fazenda, Seu Garrafinha entrou em contato com alguns arqueólogos para averiguar os fatos. E não é que aquele senhor de pouco estudo, porém muita sensibilidade estava certo, o lugar foi reconhecido como um sítio arqueológico, criou-se então um parque de proteção ao redor da área, e Seu Garrafinha foi escolhido como guardião do local.

 

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A descoberta chamou atenção da mídia internacional, estudiosos do mundo todo vieram para ver de perto as tais rochas, e o Seu Garrafinha foi entrevistado até mesmo pela National Geographic, que fez uma grande matéria sobre o Stonehenge brasileiro. Mas como toda novidade, ela foi perdendo a graça com o tempo, e o parque, assim como o Seu Garrafinha foram caindo no esquecimento. O governo começou a atrasar seu salario de guarda parque, e a pouca estrutura montada no local foi sendo deixada de lado, nosso patrimônio histórico passou a estar em risco.

 

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Mas Leilson sabia do valor daquele local, e mesmo sem o suporte do governo, passou a cuidar do espaço por conta própria, mantinha o mato cortado, e a casa na qual trabalhava como caseiro em perfeitas condições para todo e qualquer visitante que quisesse conhecer o local. Não ganhava nada com isso, não cobrava estadia, muito menos entrada para o parque, fazia aquilo pois sabia de uma maneira mais intuitiva do que intelectual, que aquele local possuía um valor muito maior do que qualquer autoridade poderia reconhecer, se sentia responsável por fazer parte daquela descoberta, e tentou com todas suas forças manter nosso patrimônio preservado, tentou com tanto vigor que acabou sofrendo um AVC pelo stress psicológico que tal carga exercia sobre sua mente.

 

O governo o desligou do seu cargo por conta da doença mas ainda assim Seu Garrafinha comprou uma moto para seu genro, para que o jovem pudesse cuidar do parque em seu lugar, o guerreiro não abandonou o campo de batalha, mesmo com a derrota quase iminente, utilizou ainda da pouca força que tinha para proteger nosso Stonehenge, ele recebeu homenagens de diversas universidades por seu esforço pessoal, quadros de solenidade estão pendurados em sua parede, porém ninguém esteve ao seu lado para ajuda-lo a erguer sua espada.

 

 

Sua ligação com o local é tão forte, que rendeu inspiração para que esse homem pouco letrado pudesse elaborar poesias de uma profundidade lírica indescritível, não vou publicar nenhum de seus poemas pois quero permitir para quem tenha interesse, ouvir diretamente dos lábios desse senhor que tem seus olhos tomado por lágrimas quando recita sobre as rochas.

 

Seu Garrafa me propôs passar uma noite no Stonehenge em companhia de seu genro que gentilmente me levou de moto até o local, abriu espaço entre o mato que cobre atualmente as rochas para que pudéssemos nos aproximar, tirei algumas fotos e depois passei a noite na pequena casa construída próximo ao Stonehenge. No dia seguinte fiz uma grande compra de alimentos, preparei um almoço junto a Dona Nilza para todos nós,e enchi a dispensa de seu genro, que tem cinco crianças e não recebe seu salário a mais de dois meses, não que eu seja uma boa pessoa, mas simplesmente qualquer um que tenha um pouco de humanidade faria o mesmo no meu lugar.

 

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Ainda dormi uma noite na pequena casa de madeira de Seu Garrafa em Calçoene, para na manhã seguinte pegar uma carona na moto de seu compadre, que me deixaria na beira da estrada para tentar encontrar alguém que me desse carona ao Oiapoque.