Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

As belezas secretas de Mérida

O Redescobrir é um projeto que nasceu sem um objetivo específico, e essa pra mim é uma das características que o torna mais interessante, a ausência do conceito que delimitaria o seu tornar-se., ele é assim por ir existindo.
Em Mérida tive uma experiência muito interessante, a primeira pessoa que tive contato foi Michelle na cidade foi Michelle, uma garota local que foi me encontrar em um dos primeiros dias em uma praça no centro histórico da cidade, nos afinizamos bastante e a partir desse dia começos a sair juntos, ela me levou para conhecer toda a região montanhosa que cerca a cidade, vilarejos e banhos termais, mas isso vou detalhando melhor ao longo desta publicação.

 

 

Conheci através de Michelle, sua prima Luisana, pessoa muito agradável que me acolheu de braços abertos em sua família, dormimos alguns dias em sua casa e em um desses dias tive uma experiência gastronômica fascinante. Sua família que cultiva choclo, um tipo de milho grande e doce, colheu algumas espigas de seu quintal e me prepararam um grande prato de arepas de choclo. A massa feita de cem por cento milho ralado, espalhada na frigideira untada de manteiga caisera forma uma espécie de panqueca muito saborosa que se come geralmente acompanhada de queijo fresco.

As meninas eram ótimas dançarinas de salsa, não dessas cheias de técnica de escolas de dança, mas sim daquelas que conhecem o garçom do bar, se cumprimentam com um sorriso e no meio da noite, como em um lapso de ritmo que toma conta de seus corpos latinos, estão movendo-se em sincronia, enchendo o salão de alegria e naturalidade, me colocavam naquele turbilhão de balanço no qual eu tentava acompanhar, que gentilmente segundo eles foi sucesso, mas independente disso, eu sempre me divertia muito.

O lugar que eu fiquei hospedado por mais tempo parecia de um conto de fadas, uma casa no alto da montanha, isolada da cidade, com uma vista panorâmica maravilhosa, cercada de natureza e com um ar que enchia meus pulmões de frescor pela manhã, uma herança de família onde morava um jovem casal de caraqueños, Juan e Tahíri, que gentilmente me abriram as portas de sua casa durante a minha estadia em Mérida.

 

 

Fazia tempo que não dormia tão bem, as janelas do meu quarto eram de madeira maciça e bloqueavam a entrada de qualquer raio solar, permitindo que eu estendesse meu sono pela manhã, e que pudesse recuperar um pouco do cansaço crônico que uma viagem na intensidade que estava fazendo acarreta. Nessa minha viagem, talvez por ser a mais longa que já fiz, percebi que a manutenção do seu corpo é algo essencial. Passei a valorizar cada minuto em uma cama confortável, em um ambiente que eu não precisasse estar alerta, passei a valorizar cada oportunidade que tive de comer um vegetal ou fruta, me alegrava muito mais em compartilhar essas atividade quotidianas e corriqueiras do que fazer alguma atividade tipicamente classificada como entretenimento.

Juan, meu anfitrião também era um amante de fotografia, me contou que por conta do controle de cambio do governo, ele tinha acesso a um determinado valor de dólares subsidiados (oficial) que não o alcançava para comprar uma câmera profissional, e como a circulação de dólares no país é restrita, há pessoas que pagam valores exorbitantes por divisas estrangeiras no câmbio negro, tornando praticamente impossível para a maioria do venezuelanos de importar o que for com a conversão não subsidiada. Mas apesar da limitação do aparelho, as fotos de Juan tinham uma sensibilidade no olhar, um cuidado no tratamento da imagem, uma personalidade, o dia que saímos para fotografar juntos, trocamos nossas câmeras e ele se saiu muito bem, se adaptou rápido ao meu aparelho e tirou algumas fotos muito boas.

 

 

Caminhando por uma das principais praças de Mérida presenciei um evento social e político muito interessante, o aniversário póstumo de Hugo Chávez. O PSUV aproveitava a ocasião para promover o atual presidente Nicolas Maduro com um entretenimento que parecia ter saído do programa do Ratinho, mas uma parte da população parecia realmente admirar a imagem de Chávez e idolatrar o governo do ex-presidente. As pessoas com quem convivi no país eram todas de classe média-alta e anti-Chavistas, mas a propaganda forte durante o governo personalista de Chavez, e um forte apelo populista, com benefícios sociais não vistos em nenhum outro país do mundo, deixou um grande legado de seguidores de seus pensamentos bolivarianos.

 

 

Uma das paisagens mais bonitas que vi na Venezuela foi próximo à Mérida, os Paramos me proporcionavam além de uma linda paisagem, piscinas naturalmente aquecidas com vista panorâmica do mural de fauna e flora que esperava a ser contemplado. Enquanto me banhava, o sentimento de gratidão tomava conta do meu corpo, me empenhava em registrar profundamente em minha memória cada detalhe da subita sensação que aquele instante me presenteou, ao mesmo tempo que não queria que acabasse, sabia que a efemeridade do momento é o que completava o sabor único da minha vivência.

 

 

Os lagos também são uma atração nas redondezas de Mérida, e foi visitando um deles que decidi me despedir da Venezuela, país que me proporcionou vivências inesquecíveis, um dos países mais bonitos que já visitei, tive meu primeiro contato com o mar do caribe, explorei o monte Roraima que compartilhamos entre três nações, e nas frias montanhas de Mérida, me despeço de você tão querida Venezuela, sou muito grato por todas essas sensações.

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