Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

Nosso Amapazão

Deixei Santarém por vias fluviais, mais uma vez fui encarar o rio Amazonas nas embarcações tradicionais da região. Deitado em minha rede aproveitei para terminar alguns livros que tinha deixado de lado, e ouvir um pouco de música em francês, afinal a Guiana estava próxima e precisava desenrolar meu “parler français”. O porto que seria em Macapá, descobri na verdade não ser em Macapá, o barco ancorou em Santana e passei a madrugada nele antes de sair vagando em um lugar desconhecido noite afora (aprendi minha lição em Manaus). Pela manhã me despedi de um dos membros da tripulação, meu parceiro de café, cigarro e insônia, que infelizmente por incompetência e/ou procrastinação não anotei seu nome no caderno, comi alguma besteira em um boteco na beira do cais e em seguida iniciei minha busca por uma alma caridosa disposta a telefonar para Maíra, meu contato na cidade. Parei em uma loja de artigos para panificação e depois de hesitar por um momento, a atendente da loja acabou realizando a chamada

 

Apesar das informações extremamente precisas que Maíra me passou, resolvi confiar em um cobrador que não sabia para onde eu estava indo, e consegui descer no ponto errado do ônibus, o que me resultou numa caminhada de quase uma hora num sol escaldante dos trópicos, com minhas mochilas que nem vou comentar quanto pesam para não parecer idiota. Enfim cheguei na casa e fui recebido com água gelada e uma vela comemorativa, uma excelente recepção que criou uma empatia quase que instantânea com meus novos anfitriões.

 

 

Maira, Eduardo e Luiz, assim se chamavam eles, jovens veterinários trabalhando para Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) perdidos no Amapá, quase todos os dias planejávamos visitar algum ponto turístico do estado, mas terminávamos em alguma festa, ou “passeios” como gostava de defini-los Luiz. Mas minha estadia também teve seu lado cultural, visitamos Masagão uma cidade histórica que fica à poucos quilômetros de Macapá, fomos ao museu Sacaca que é um espaço bem aproveitado com exposições, música e comida tradicional, visitei o marco zero e bati um rango no bandejão da federal como de costume, mas acredito que o ponto alto foi a visita ao Curiaú, uma comunidade quilombola que fica bem próxima à cidade. Tive muita sorte pois cheguei na época em que estava sendo realizada uma das festas mais tradicionais, o Marabaixo, tive a oportunidade de participar de suas danças ancestrais e de provar a famosa gengibirra, uma bebida feita a base de aguardente e gengibre que além de deliciosa é um poderoso combustível para manter os corpos dançantes até o nascer do sol.

 

No último dia, mesmo virados de uma festa “Dark”, ainda tivemos disposição para visitar a ilha de Santana, um lugar lindo que se eu não estivesse de ressaca, todo sujo de lama por escorregar e cair no mangue e morrendo de sono, teria aproveitado mais ao invés de passar o dia jogado na areia. Me diverti muito em Macapá, quase não produzi material fotográfico e escrito, mas quem se importa.

 

 

Assim como na minha chegada, detalhes embelezaram minha partida , Eduardo me deixou de carro em posto de gasolina na saída da cidade e Maíra cozinhou algumas pupunhas para que eu comesse no caminho. Havia conversado muito com meus anfitriões sobre qual poderia ser meu próximo destino no estado, decidi que não poderia deixar de ver o sítio arqueológico que ficava em uma cidade chamada Calçoene, metade do caminho para o Oiapoque, o tal sítio era conhecido por ser o Stonehenge brasileiro, o acesso pelas estradas de terra parecia ser bem difícil e toda a informação que eu tinha para chegar no local era um nome: Seu Garrafinha, o guarda parque, ainda assim estava muito animado com a possibilidade.

 

Com relação a carona para Calçoene tive muita sorte, o primeiro motorista com quem falei ia diretamente para a cidade, eu estava um pouco cansado e acabei dormindo todo o caminho, não conversamos muito mas pelas poucas palavras que trocamos soube que ele era vendedor. Assim que chegamos ao nosso destino estacionamos em uma pequena vendinha para deixar algumas de suas mercadorias, aproveitei esse intervalo para perguntar se alguém conhecia o Seu Garrafinha, e surpreendentemente sim, pela maneira como me responderam me soou como algo óbvio, subentendido na pergunta, ele parecia ser uma entidade ou figura ilustre na cidade, um dos rapazes com os quais conversava disse que tinha uma moto e que me deixaria em frente a sua casa, não muito longe de onde estávamos, agradeci ao motorista do carro pela carona e me despedi.

 

Cheguei na casa de Leilson Carmelo da Silva, vulgo Seu Garrafinha, me apresentei, e fui recebido como um velho amigo, sua esposa Dona Nilza me serviu um delicioso cafezinho, o qual ela se gaba por manter sempre fresco e a disposição de qualquer visita que queira ter uma boa tarde de conversas em companhia do casal. Seu Garrafinha foi a primeira pessoa a descobrir o conjunto de pedras conhecido hoje como o Stonehenge brasileiro, logo percebeu que aquele agrupamento rochoso poderia ter algum valor histórico, na época ele trabalhava para um fazendeiro que simplesmente ordenou que toda a área fosse derrubada e queimada para a criação de gado, percebendo que tais rochas teriam um valor muito maior do que o estimado pelo proprietário da fazenda, Seu Garrafinha entrou em contato com alguns arqueólogos para averiguar os fatos. E não é que aquele senhor de pouco estudo, porém muita sensibilidade estava certo, o lugar foi reconhecido como um sítio arqueológico, criou-se então um parque de proteção ao redor da área, e Seu Garrafinha foi escolhido como guardião do local.

 

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A descoberta chamou atenção da mídia internacional, estudiosos do mundo todo vieram para ver de perto as tais rochas, e o Seu Garrafinha foi entrevistado até mesmo pela National Geographic, que fez uma grande matéria sobre o Stonehenge brasileiro. Mas como toda novidade, ela foi perdendo a graça com o tempo, e o parque, assim como o Seu Garrafinha foram caindo no esquecimento. O governo começou a atrasar seu salario de guarda parque, e a pouca estrutura montada no local foi sendo deixada de lado, nosso patrimônio histórico passou a estar em risco.

 

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Mas Leilson sabia do valor daquele local, e mesmo sem o suporte do governo, passou a cuidar do espaço por conta própria, mantinha o mato cortado, e a casa na qual trabalhava como caseiro em perfeitas condições para todo e qualquer visitante que quisesse conhecer o local. Não ganhava nada com isso, não cobrava estadia, muito menos entrada para o parque, fazia aquilo pois sabia de uma maneira mais intuitiva do que intelectual, que aquele local possuía um valor muito maior do que qualquer autoridade poderia reconhecer, se sentia responsável por fazer parte daquela descoberta, e tentou com todas suas forças manter nosso patrimônio preservado, tentou com tanto vigor que acabou sofrendo um AVC pelo stress psicológico que tal carga exercia sobre sua mente.

 

O governo o desligou do seu cargo por conta da doença mas ainda assim Seu Garrafinha comprou uma moto para seu genro, para que o jovem pudesse cuidar do parque em seu lugar, o guerreiro não abandonou o campo de batalha, mesmo com a derrota quase iminente, utilizou ainda da pouca força que tinha para proteger nosso Stonehenge, ele recebeu homenagens de diversas universidades por seu esforço pessoal, quadros de solenidade estão pendurados em sua parede, porém ninguém esteve ao seu lado para ajuda-lo a erguer sua espada.

 

 

Sua ligação com o local é tão forte, que rendeu inspiração para que esse homem pouco letrado pudesse elaborar poesias de uma profundidade lírica indescritível, não vou publicar nenhum de seus poemas pois quero permitir para quem tenha interesse, ouvir diretamente dos lábios desse senhor que tem seus olhos tomado por lágrimas quando recita sobre as rochas.

 

Seu Garrafa me propôs passar uma noite no Stonehenge em companhia de seu genro que gentilmente me levou de moto até o local, abriu espaço entre o mato que cobre atualmente as rochas para que pudéssemos nos aproximar, tirei algumas fotos e depois passei a noite na pequena casa construída próximo ao Stonehenge. No dia seguinte fiz uma grande compra de alimentos, preparei um almoço junto a Dona Nilza para todos nós,e enchi a dispensa de seu genro, que tem cinco crianças e não recebe seu salário a mais de dois meses, não que eu seja uma boa pessoa, mas simplesmente qualquer um que tenha um pouco de humanidade faria o mesmo no meu lugar.

 

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Ainda dormi uma noite na pequena casa de madeira de Seu Garrafa em Calçoene, para na manhã seguinte pegar uma carona na moto de seu compadre, que me deixaria na beira da estrada para tentar encontrar alguém que me desse carona ao Oiapoque.

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