Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

O Acre existe

Rio Branco é uma cidade, assim como grande parte do Brasil, de muita miscigenação, uma mistura de indígenas, nordestinos e diversos povos que vieram para a região iludidos pela ideia de prosperar com os seringais durante a o boom da borracha. Tiveram seus sonhos vendidos por alguns trocados pelos ingleses, que contrabandearam sementes de nossas seringueiras e criaram grandes plantações na Malásia e África, destruindo o mercado brasileiro uma vez que as plantas nativas encontravam-se a quilômetros de distancia umas das outras, fazendo com que sua extração fosse extremamente difícil quando comparada à plantios organizados para esse fim. Atualmente os problemas desse crescimento desordenado são explícitos, a cidade possui um vasto território e uma péssima distribuição de edifícios, assim como apresenta muitos problemas no serviços públicos básicos oferecidos.

Cheguei na cidade muito sensível e aberto depois da incrível experiência que tive em Humaitá, e assim que coloquei meus pés no terminal de ônibus de Rio Branco me senti engolido pela massa de energia inquieta das cidades grandes. Era hora do rush e milhares de pessoas alvoraçadas circulavam ao meu redor de uma maneira perturbadora, em contrapartida dessa vez fui muito mais fácil encontrar Bruno o dono da casa que nos hospedaria aqui em Rio Branco, mais uma vez pelo abençoado Couchsurfing. Com os contatos telefônicos nos deu orientações precisas de qual ônibus tomar, onde descer e chegamos sem nenhuma dificuldade.

Com mais tranquilidade fomos descobrindo os fatores positivos na cidade como o programa Floresta Digital que oferece wiifii grátis por quase toda sua extensão, a UFAC, Universidade Federal do Acre que me proporcionou maravilhosas refeições no R.U. que tinham seu sabor ressaltado pelo valor de R$1,50, uma vez que seus alunos me compravam tickets sem nenhuma resistência. Há uma excelente biblioteca pública que não restringe a entrada de ninguém, pude até mesmo presenciar moradores de rua frequentando o ambiente, sem que em nenhum momento fossem molestados pelos seguranças do local. Tivemos a oportunidade também de conhecer o município de Quixadá onde foi gravada a série “Amazônia – de Galvez a Chico Mendes”, da Rede Globo, próximo aos seringais. Outro lugar que merece destaque é a Biblioteca da Floresta, que apesar do nome tem como sua principal atividade a disponibilização de seu espaço para exposições e um acervo fixo que trata sobre a mestiçagem na região.

Nesse local conheci duas pessoas muito interessantes, Alan Miguel um jovem indígena que vive a muito tempo na cidade, realizou seus estudos formais na universidade em Rio Branco e que mantém contato frequente com sua cultura tradicional, também Samuel rapaz de trejeitos peculiares que fala de maneira afobada e com pouca linearidade, filho de um historiador, nativo do Acre que conhece muito da cultura regional. Conversando com eles pude escutar diferentes perspectivas de um fator cultural muito forte nos estados amazônicos: A Ayahuasca. Se trata de uma bebida preparada a partir de um cipó conhecido como mariri ou jagube e as folhas de um arbusto da família das Psychotria como chacrona ou rainha, utilizado desde a época dos incas e atualmente muito difundido em países como Peru, Equador, Colômbia, Brasil e ainda por pelo menos 72 diferentes tribos indígenas da Amazônia. A partir de um sincretismo religioso se fundiu com o cristianismo e seu uso se expandiu por movimentos religiosos, sendo o mais conhecido o Santo Daime, mas há também outros bem significativos como União do Vegetal e A Barquinha.

Tive muito interesse em conhecer essas duas visões na prática e comecei a garimpar mais informações à respeito.  Samuel me contou que frequentava o Alto Santo, uma das primeiras igrejas do Santo Daime fundada pelo Mestre Irineu Serra com intuito de difundir os conhecimentos espirituais adquiridos por ele nos seringais da floresta através da bebida. Após declarar interesse, Samuel me passou o endereço e a data do próximo trabalho, porém me alertou que nas primeiras vezes que frequentasse não poderia tomar o chá mas que seria muito bem recebido no ritual. Já Alan Miguel me relatou de uma maneira bem articulada e tranquila como eram feitos os rituais em sua aldeia, me contou que regressava com frequência para sua comunidade com intuito de participar dos eventos religiosos, porém  nessa época do ano não haveria nenhum por conta da ausência do líder espiritual, que se encontrava na cidade fazendo um tratamento médico, me disse porém que na região de Feijó e Cruzeiro do Sul a Ayahuasca era muito disseminada entre várias etnias indígenas, e tais cidades possuíam fácil acesso por vias rodoviárias.

Sai satisfeito com as informações que havia coletado e caminhava distraidamente pelo centro de Rio Branco, quando fui abordado por um rapaz que se apresentou como Orlandio de origem indígena, me disse que sentiu uma afinidade energética comigo e perguntou se eu já havia tomado Ayahuasca alguma vez. Disse que não mas que tinha interesse, e então ele me convidou para acompanha-lo até Cruzeiro do Sul dentro de algumas semanas e participar dos rituais em sua aldeia de etnia Kuntanawa, uma imensa e surpreendente coincidência, que me deixou bastante empolgado e estimulado com minha ideia de conhecer tais culturas, porém teria que pensar a respeito, pois não tinha a menor vontade de ficar em uma cidade grande como Rio Branco por tanto tempo.

Me despedi de Lais minha irmã que voltou para São Paulo para continuar seus estudos e comecei minha carreira solo na vida de mochileiro. Pela noite, por indicação de Bruno, host do Couchsurfing, fui encontrar algumas amigas suas que trabalham na FUNAI e que apesar da pinta de hippie quiseram ir num restaurante bem caro no qual eu fiquei só assistindo enquanto gastavam um puta grana e reclamavam que não tinham dinheiro pra viajar. As garotas são antropólogas que trabalham com a causa indígena, muitas vezes os defendendo cegamente, à parte de uma delas que era um pouco mais moderada e sabia escutar. Divergimos em algumas opiniões, mas no final das contas nos demos bem e convidaram para participar de uma reunião entre a presidente da FUNAI e lideranças indígenas que ocorreria na Biblioteca da Floresta, uma excelente oportunidade de fazer contatos e viabilizar minha ida para alguma aldeia. Nesse mesmo jantar estava Yann, um francês de dezoito anos que veio para o Brasil com o intuito de aprender com os indígenas à como sobreviver na selva, quando escutou à respeito do assunto perguntou se poderia me acompanhar, e é claro que aceitei sua proposta.

A reunião que começaria as 16:30, teve mais de quatro adiamentos, os indígenas chegavam pouco à pouco, despreocupados, cada um mais interessado em suas questões pessoais e com uma percepção de tempo completamente diferente do homem “branco”. Nesses meio tempo fomos ao centro andando, depois para casa do host de Yann com direito à um sermão moralista, e ainda deu tempo para ligar para Orlandio e provar um rapé indígena. Quando chegamos pela quarta vez no local da reunião já era tarde da noite e decidimos ficar por lá mesmo, aguardando que os líderes chegassem, uma das antropólogas que conheci, a mais cabeça aberta, me indicou quem era o cacique Kuntanawa, e assim fomos conversar diretamente com ele, pegamos seu contato e fomos autorizados a visitar sua aldeia, sendo assim, não teria que esperar Orlandio por semanas em Rio Branco, e logo poderia conhecer os rituais sagrados indígenas além de  deixar um pouco dos meus conhecimentos sobre nutrição na aldeia.

Como de costume fiz minhas refeições diárias na UFAC, gastando quatro reais com café da manhã, almoço e janta, e me preparei para conhecer um dos mais tradicionais centros de Santo Daime de todo o país, o Alto Santo. Acabei me atrasando e deixei o Yann me esperando, fortalecendo seu preconceito (ou conceito) de que brasileiro não é pontual, quando cheguei ele já não estava mais por lá e fui sozinho. Tomei o ônibus que se chamava Irineu Serra e assim que desci já fui tomado por uma energia muito positiva, do lado de fora já se podia escutar as canções entonadas energeticamente por centenas de pessoas, um senhor de terno branco me abriu o portão e entrei.

Fotos eram proibidas, mas era o que eu mais queria fazer naquele momento, registrar tudo aquilo que encantavam meus olhos, quando cheguei mais próximo ao local de onde vinha a música avistei uma cena linda, homens de farda, terno e sapatos completamente brancos e mulheres que estavam com vestidos de longas saias verdes, suspensórios em Y, tiara de brilhantes e fitas coloridas amarradas em seus braços, todos dançavam ao redor de um altar cantando suas músicas que chamam de hinários, embalados por uma banda que tocava ao vivo e por seus maracás, uma grande festa com rojões e horas consecutivas de dança. Ninguém estava alucinado ou aparentando estar sobre efeito de alguma substância psicoativa, haviam desde crianças a idosos, e quando perguntei se até mesmo as crianças haviam tomado, me responderam que elas foram batizadas com Daime. Não cheguei a tomar o chá, mas ainda assim fui completamente envolvido por todo aquele ambiente, e voltei muito leve para casa.

Rio Branco

Agora que já havia conhecido a vertente cristã do ritual da Ayahuasca, estava pronto para seguir rumo às aldeias, e fazer o paralelo com os rituais indígenas. Aproveitando que Bruno que iria deixar uma americana e outra australiana, que também chegaram aqui pelo Couchsurfing, no aeroporto, pegamos uma carona até a rodovia na saída da cidade, onde eu e Yann tentaremos conseguir outra carona até Cruzeiro do Sul.

 

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