Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

O cotidiano de um ribeirinho

 

Chegando em Rio Branco os caminhoneiros me deixaram na porta da casa de Bruno, onde meus planos eram atualizar o Redescobrir e conseguir uma carona até Cobija na Bolívia, onde participaria de outro projeto de saúde indígena. O pequeno detalhe com o qual eu não contava, era a maior cheia dos últimos 100 anos do rio Madeira, que além de impedir minha ida à Cobija, também interditou a BR que conecta o Acre ao resto do país, deixando o estado isolado. Esperei alguns dias, semanas, e percebi que o rio não recuaria tão cedo, meu projeto tinha que continuar e precisava encontrar uma solução.
Lembrei de conversas com alguns amigos, que me disseram que todo cidadão brasileiro tem direito de viajar com a força aérea brasileira (FAB), busquei informações na internet e encontrei alguns BLOGS que informavam que deveria fazer um cadastro no Correio Aéreo Nacional (CAD) e aguardar um voo para o destino desejado. Liguei para o CAD, soube da disponibilidade de traslado para Porto Velho, fiz um cadastro de cinco minutos por telefone e pronto, só teria que comparecer no dia seguinte no aeroporto e apresentar o número de protocolo, o voo atrasou um dia mas no final deu tudo certo, ganhei até um cafezinho à bordo.

Cheguei em Porto Velho, fiquei na casa de Tiago, um couchsurfer que já conhecia, e de lá peguei um barco para Manicoré. Manicoré é uma cidade às margens do Rio Madeira sem acesso por via terrestre, a primeira impressão foi muito boa, apesar de pequeno o porto era organizado e moderno. Peguei carona em uma moto que me deixou na casa de passagem de policiais militares, onde ficaria hospedado por indicação de Jania, PM que conheci em Humaitá.

 

Explorando a cidade me chamou atenção um jardim que era decorado com garrafas de 51 vazias, pedi para o dono para tirar algumas fotos e ele começou a me mostrar itens muito interessantes que possuía, como ossadas, partes de animais em formol e artesanatos feitos de ossadas. Se apresentou como Carapirá e me chamou para entrar, fumamos Santa Maria e ficamos conversando o dia todo, tivemos grande afinidade e ele me convidou para almoçar um prato regional no dia seguinte.

 

Voltei à casa de Carapirá no dia seguinte e fiquei fascinado com o cardápio do dia, ele preparou carne de macaco guariba no leite da castanha do Pará, o prato estava uma delicia, porém quando chegou no momento de comer os miolos do bicho parece que havia algum bloqueio evolutivo dentro de mim me impedia de comer a cabeça de um ser tão semelhante, uma sensação muito estranha tomou conta da minha pessoa e deixei o Carapirá se deliciar com tal iguaria. Decidimos sair para pescar, peguei minha câmera e pulei dentro da voadeira, navegamos por vinte minutos e Carapirá e seu amigo quiseram parar para tomar um cerveja em um buteco às margens do rio, nunca mais fomos pescar, ficaram doidões e foi bem difícil voltar pelo mesmo trajeto que havíamos feito anteriormente com os níveis de álcool elevado e a noite que tomava conta de todo o céu, mas após algumas discussões entre eles chegamos com segurança à casa de Carapirá.

 

Fiquei muito amigo do ribeirinho e passei boas tardes em sua casa, onde fumávamos Santa Maria, tomávamos suco de goiaba de seu quintal, comíamos bananas, laranjas, e assistíamos os botos passarem nadando pelo rio Madeira, as pessoas da cidade eram extremamente acolhedoras, e algumas vendiam um litro de açaí por três reais, o que me deixava ainda mais feliz. Nessas cidades pequenas com estilo de vida provinciano, se pode alcançar um elevado nível de intimidade com os moradores em pouco tempo, fui pedir um espelho emprestado à um vizinho para cortar meu cabelo, porém minha máquina quebrou, quando fui devolver o espelho esse mesmo vizinho notou meu exótico corte de cabelo pela metade e se ofereceu para consertar aquela tragédia, ele era muito habilidoso com sua tesoura, repicou meu cabelo e fez o melhor corte que eu já tive, ajeitou até mesmo minha barba, foi inesperado e muito gratificante, não só pelo corte mas pela interação sincera entre dois quase desconhecidos.

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Próximo da casa onde estava, havia um local coberto onde consegui instalar meu slackline em duas colunas de concreto, pouco à pouco fui ganhando a atenção das crianças da cidade e quando percebi já haviam mais de vinte fazendo fila para se equilibrar na corda bamba. Mas não foram só as crianças que se sentiram atraídas pelo slackline, Madalena uma garota mestiça de traços indígenas também se aproximou, conversamos um pouco e quando estávamos à sós nos beijamos fervorosamente.

 

Já estava chegando próximo da data que deixaria a cidade, e decidi levar um presente para Carapirá, imprimi algumas fotos dos dias anteriores que passamos juntos e fui deixar em sua casa, acabei não o encontrando pessoalmente e deixei o presente com seu vizinho. Na volta para casa dos PMs onde estava dormindo passei por uma provação do meu caráter, a noite estava chuvosa e enquanto ia caminhando pude notar um vulto cambaleante do outro lado da rua que de repente desapareceu, corri em sua direção para ver o que havia acontecido e quando cheguei mais próximo pude notar um senhor de cabeça para baixo, se afogando em um bueiro que estava sem a tampa, ele estava coberto de merda e por esse motivo todo meu egoísmo e mesquinhez fez com que eu hesitasse alguns instantes antes de afundar minha mão naquela matéria orgânica, e junto à outro popular resgatar o senhor, o ser humano é uma merda quando tomado pelo egoísmo.

 

No dia de partir da cidade pratiquei um pouco de Yoga pela manhã, tomei um café reforçado e deixei a casa. Passei em uma lan-house para anotar o endereço do couchsurfing de Manaus e segui para o porto, onde buscaria um barco que partisse em direção ao encontro do Rio Negro com o Rio Amazonas, conhecido como encontro das águas. Os barcos que saem com frequência são cargueiros que levam produtos entra uma cidade e outra, e disponibilizam um dos andares para que passageiro atem suas redes. Os barcos são bem lentos e levei dias para chegar à Manaus, não consegui dormir muito bem pois a movimentação era constante entre as redes e havia muito barulho, mesmo assim adorei a viagem, era fascinantes viajar por um rio tão largo e profundo, cruzando com navios de cruzeiro que eu imaginava que somente poderiam navegar no oceano, e a paisagem também era muito bonita.

 

 

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