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As pequenas grandezas no caminho

O Imponente Roraima

Cheguei em Boa Vista já com Couchsurfing para me receber, fiquei na casa de Marcia, e fui muito bem acolhido por sua irmã, mãe e namorado, que fizeram da minha estadia uma experiência bem agradável. Enquanto estava na cidade, conheci também Maercio, um empresário indígena que visitava a cidade por alguns insumos, e que me levou para conhecer alguns pontos turísticos de Roraima. Era época de copa de mundo, Brasil enfrentava a Colômbia, foi a segunda vez que assisti um jogo durante todo o evento, estava mais preocupado em organizar minha subida ao monte Roraima, e descansar meu corpo para o desafio que estava por vir.

Peguei carona até a cidade fronteiriça com a Venezuela, chamada Pacaraima, onde a policia federal brasileira faz um controle de travessia, o posto estava fechado, portanto só poderia cruzar a fronteira no dia seguinte. No caminho havia conhecido Jonathan, um maluco de estrada, e imaginei que ele pudesse me informar sobre algum lugar seguro para passar a noite, e de fato ele sabia, havia um lugar próximo aos banheiros da estação, que era uma área coberta e iluminada, onde havia espaço suficiente para montar minha barraca. Não muito longe havia um restaurante, onde me ofereci a lavar algumas louças em troca de comida, e acabei ganhando uma marmita do dono do restaurante, que nem aceitou meu trabalho em troca, compartilhei com meu novo colega de viagem e fomos dormir.

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No dia seguinte acordamos, e nos posicionamos do outro lado do controle de fronteira venezuelano à espera de uma carona. Conversando com Jonathan, venezuelano nativo e com muita experiência de estrada, ele me disse que caso quisesse chegar à base do Monte Roraima, onde começa a escalada, eu deveria pegar uma carona até San Francisco de Yuruaní, e de lá conseguir algum veículo 4×4 para poder continuar meu trajeto até Paraitepuy, último vilarejo indígena antes do início da escalada, local onde talvez fosse possível encontrar um guia local, fator obrigatório para a entrada no parque.

Passei uma noite em San Francisco, me despedi de Jonathan e fui em busca do meu guia e meu transporte 4×4, que eram oferecidos a preços bem fora do meu orçamento. Depois da fase de negação, veio a aceitação, percebi que teria que iniciar minha caminhada ali mesmo, antes de chegar na base da montanha, peguei minha coisas e comecei a subida de quase 30km, com todo o equipamento que eu levava e indo num ritmo tranquilo, demoraria quase o dia todo para chegar. Os carros 4×4 passavam repletos de turistas, que me observavam curiosos, caminhando todo o trajeto à pé, até o momento que avistei um desses carros que subia sem passageiros, fiz sinal de carona e ele parou, conversamos e disse que estava abastecendo o vilarejo com gêneros alimentícios, ele queria dinheiro para me levar, mas após mais alguns minutos de conversa acabou me fazendo esse favor de graça, agora só faltava conseguir um guia.

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Assim que cheguei em Paraitepuy, fui conversar com os guias oficiais, queria saber se não podia entrar em algum grupo já formado, por um preço mais acessível, o que não foi possível, mas eles me disseram que por ser uma terra indígena, eu estaria autorizado à entrar no parque, caso estivesse acompanhado de qualquer morador da aldeia. Achei então interessante ficar por alguns dias na base da montanha e me integrar mais à comunidade, assim conheceria mais de sua cultura e aumentaria minhas chances de conseguir um preço mais acessível por um guia.

Foi assim que conheci Christopher, um jovem alemão que assim como eu, estava viajando com pouca grana e também estava acampado em Paraitepuy, era um cara com um astral positivo, e decidimos fazer juntos a subida do Monte Roraima. Ele já tinha feito um contato em San Francisco, conversou com um guia e tinham um acordo de que ele viria no dia seguinte, faríamos o trajeto um pouco mais rápido que o convencional, 1 dia a menos em média, e nos cobraria um preço bem razoável.

Acordamos antes do nascer do sol, e esperamos o guia que nunca chegou por toda a manhã. Saímos perguntando aos locais sobre Tony, e tudo que nos diziam era que ele era uma pessoa pouco confiável, com problemas de alcoolismo e que provavelmente ele tinha bebido todo o dinheiro que o alemão havia adiantado para ele. Christopher confiava no acordo que tinha com ele, mas ainda assim decidiu regressar os 30km à pé e buscar pessoalmente o nosso guia no conforto do seu lar.

A caminhada começou sem muita confiança entre o grupo, mas mesmo assim no primeiro dia, conseguimos chegar de Paraitepuy até o acampamento na base da montanha. Como teríamos 1 dia a menos que os outro grupos, nosso objetivo estar no topo do Monte Roraima já no segundo dia, para poder melhor aproveitar nosso tempo, e visitar os pontos mais importantes da montanha. E foi o que aconteceu, chegamos ao topo, encontramos nosso “hotel”, assim denominados as cavernas no Monte onde se pode proteger de chuvas e ventos, e montamos nosso acampamento.

O acampamento no topo, nos servia de base para explorar pontos na montanha com paisagens estonteantes. Lá encima se caminha acima do nível das nuvens, o cenário parece de um filme de ficção científica, o chão em diversos pontos é coberto por cristais, e a fauna e flora são únicas e bem características do local. Visitamos a tríplice fronteira entre Venezuela, Guiana e Brasil, rios e cachoeiras se materializam e desaparecem de acordo com as intensas variações climáticas que se apresentam com alta frequência, em alguns minutos uma tempestade podia se formar, acompanhada de uma névoa que não te permite enxergar mais que um palmo diante dos seus olhos, um espetáculo da natureza.

Tudo estava se encaminhando bem, mas comecei a sentir uma certa ansiedade por parte do nosso guia, ele começava a querer fazer tudo rápido demais, acelerando o passo e tentando saltar tudo que ele tentava nos convencer de não ser interessante. Nos insistíamos em visitar pontos que estavam distantes do nosso acampamento base, e nosso guia resistia, até chegar ao ponto dele “lembrar” que era adventista, e que não poderia trabalhar no sábado, portanto teríamos que baixar no terceiro dia e fazer todo o caminho de volta em menos de um dia, o que nos negamos a fazer, pois afinal ainda havia muito o que explorar no topo da montanha.
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Voltamos ao nosso acampamento base, dormimos, e na manhã seguinte: SURPRESA! Nosso guia tinha nos abandonado, estávamos no topo do Monte Roraima, sem guia e com bem pouca comida. Christopher como todo alemão que se preza, tinha uma mapa do local, e chegamos ao consenso que se fossemos cautelosos, poderíamos explorar a montanha por nossa conta, afinal tudo que queríamos com um guia, era a autorização de entrar no parque, agora que já estávamos lá dentro, iriamos explorar por conta própria. Tomávamos o cuidado de nunca deixar a noite nos alcançar, e respeitávamos muito toda a imponência da natureza que se apresentava através da montanha e seu entorno. Nos perdemos algumas vezes, pensamos que nunca mais encontraríamos o acampamento, mas no final tudo deu certo.

O caminho de volta para Paraitepuy, apesar da ausência de necessidade, foi feito no mesmo ritmo da ida, eu estava com meu corpo bem fatigado, devido às extremas condições climáticas, esforço físico e alimentação insuficiente, mas o alemão tinha um maldito apito que fazia ensurdecedoramente soar toda vez que eu me sentava. Um dos guias que levava alguns turistas em direção à montanha, mandou seu grupo na frente, e parou para conversar conosco, fumamos um juntos e ele seguiu seu passo, nesse momento eu queria relaxar um pouco antes de recomeçar a viagem, mas meu colega do apito, com toda militarização intrínseca alemã, queria continuar, à ponto de pegar minha mochila e fazer uma parte do trajeto carregando as duas, isso eu até que gostei.

Já de volta à Paraitepuy, tiramos um dia de descanso, conseguimos um fogareiro no qual preparamos as melhores lentilhas que já comi na minha vida, e permitimos nossos corpos de se recuperar do impacto. Para continuar a viagem no dia seguinte, teríamos que baixar novamente à San Francisco, fizemos uma parte do caminho de 30km à pé até que conseguimos uma carona de volta à estrada. Em San Francisco comecei a me informar sobre os ônibus, afinal na Venezuela se pode encher o tanque de gasolina de um carro com apenas alguns centavos, devido ao subsidio de combustível fornecido pelo estado, algumas passagens são tão baratas que não vale a pena nem o tempo que se ficaria no sol por uma carona.

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Meu próximo destino em vista era a ilha caribenha, Isla Margarita, ao extremo norte no país, estava bem ansioso para conhecer o local, nunca havia estado no Caribe antes, a distancia era longa, então provavelmente faria uma parada em Puerto Ordaz, onde já tinha um contato para passar umas noites, mas essa história vai ficar pra próxima publicação.

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