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As pequenas grandezas no caminho

O mosaico Surinameso

Chegando na fronteira com o Suriname, tive alguns imprevisto por uma confusão de carimbos no passaporte, a ausência da saída da Guayana Francesa, uma vez que eu não tinha dado nem a entrada, acarretaria numa alta multa, que eu não estava disposto a pagar., fiquei algumas horas conversando com o agente alfandegário, que no final acabou me deixando passar por cansaço.

Eu já tinha um contato de uma pessoa que me receberia em Paramaribo, capital do Suriname, portanto o ideal seria encontrar uma carona que me deixasse diretamente na cidade. Havia por volta de 150km entre onde estava e meu destino, distância curta para se fazer em uma tarde, com um pouco de sorte conseguiria chegar ao meu destino antes do anoitecer.

Me posicionei na estrada que leva à capital do país e mais uma vez, estiquei meu dedão. Pra minha surpresa o primeiro carro que passava parou, e para minha surpresa novamente, ele queria me cobrar um alto valor para me levar, assim como o segundo, terceiro, quarto, quinto carro…. Descobri então que a maioria dos automóveis no Suriname, se convertem instantaneamente em um taxi quando avistam um estrangeiro. Apesar de querer chegar antes do anoitecer, não tinha nenhum compromisso que tornasse minha chegada absolutamente necessária, se tivesse que passar a noite na beira na estrada, não seria a primeira nem a última vez que isso aconteceria, sendo assim, sem pressa, resolvi esperar por uma carona.

Algumas pessoas que moravam na região me observavam de longe, e alguns chegaram até a se aproximar para me desencorajar de continuar esperando, mas eu estava tranquilo e continuei com meu polegar firme e forte. Depois de algumas horas passou um caminhão e gritou da janela que faria uma entrega e depois voltaria para me recolher, eu nem dei muita atenção, e continuei meu ofício de caroneiro. Mas não é que o cara voltou, passamos em um porto para deixar umas mercadorias, comemos algumas besteiras e caímos na estrada novamente.

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Chegamos em Paramaribo já de madrugada, e fiquei pelo centro da cidade, tinha o telefone e o endereço do meu host, um filipino que morava no Suriname havia algum tempo , com um telefone telefone emprestado, tentei sem muito êxito entrar em contato com meu anfitrião, foi então que decidi ir até o tal endereço e tocar a campainha, caso não rolasse acamparia por perto, e esperaria o nascer do sol.

Cheguei meio de surpresa, um dia antes de ter avisado e já de madrugada, mesmo assim ele me aceitou, mas numa posição de como se estivesse fazendo o maior favor que eu já havia recebido na vida, as vezes o sistema de hospedagem solidária tem dessas, ao mesmo tempo que pode ser uma experiência engrandecedora para sua viagem, muitas vezes temos que lidar com peculiaridades e manias de quem nos está hospedando, afinal estamos “invadindo” seu espaço privado, e temos que respeitar certos limites. Como minha chegada tinha ajudado muito, pensei que em algum tempo, após esse impacto inicial, as coisas melhorariam.

O studio no qual ele morava era maravilhoso, moderno com uma decoração rústica, todos os serviços incluídos, quase um hotel. Na manhã do dia seguinte ele saiu pra trabalhar cedo, o colchão bloqueava a porta do apartamento de um cômodo, me levantei para que ele pudesse sair, mas com o cansaço da viagem, decidi que não sairia pra conhecer a cidade tão cedo e logo voltei a dormir. Algumas horas mais tarde me levantei, fiz um pouco de yoga, e um ronco no meu estômago me trouxe à mente a ideia de ir buscar algo para comer. Troquei de roupa, peguei o que precisava e quando fui sair do quarto, surpresa, a porta estava trancada, o filipino me tinha em um cárcere privado. Uma sensação horrível tomou conta de mim, já tinha ficado trancado para fora, o que eu até prefiro, mas nunca dentro de algum lugar.

Fiquei esperando angustiantes horas o seu retorno, ouço o barulho de atrito metálico do outro lado da porta, enquanto isso controlava meus pensamentos para não disparar sobre ele todos meus cortantes pensamentos sobre o que havia acontecido, os segundos que ele deve ter tardado para entrar no quarto pareciam uma eternidade. Quando ele enfim entrou, trazendo consigo duas marmitas em suas mãos, tivemos uma discussão sobre que havia acontecido, e sobre qual deveria ser o tipo de relação entre pessoas que utilizam da hospedagem solidária para viajar, ele sempre se colocando na posição de vitima e pintando minha imagem como uma pessoa ingrata, que não reconhecia tudo que ele havia feito por mim, de fato ele tentava ser gentil à sua maneira, mas minha liberdade e direito de ir e vir, são um preço muito alto que eu não iria pagar.

Chegamos à um acordo, e ele não me trancaria mais no seu quarto, acordo o qual ele cumpriu no dias seguintes. Um dos pontos que ele colocou em discussão, é que ele gostaria de que eu fizesse parte das suas atividades socais, algo que pra mim seria muito agradável, e que geralmente acontece de maneira natural com outros anfitriões, não seria um esforço para mim. Saímos para caminhar durante o dia, e o que mais me chamava atenção na cidade era a mistura de referências arquitetônicas. A diversidade e complexidade da sua população  criava um cenário muito rico visualmente, indianos, paquistaneses, eurafricanos, ameríndios e chineses trouxeram cada um, um pouco de sua cultura e formaram esse mosaico que é o Suriname.

Já de noite meu anfitrião comentou que haveria a inauguração de um hotel de luxo na cidade, e a possibilidade de um boca livre me animou bastante, então ficamos combinados de fazer esse role. Vesti meu melhor traje de gala, uma camiseta de “marca”, fabricada na china, que eu tinha comprado em uma loja de pequenos defeitos por 20 reais, e um bermudão bege e fomos ao tão esperado evento. Aprendi nesses tempos de estrada, que se adequar à algum ambiente não se trata de uma questão de aparência, mas sim de postura e confiança, me dirigi a hostess na entrada, e disse que estava ali pela inauguração do hotel, e que havia recebido um convite em meu domicílio, com um sorriso no rosto ela nos acompanhou até o elevador que nos levaria ao terraço onde o evento estava acontecendo.

Chegamos e todos estavam de terno e vestidos longos sociais, falei pro meu anfitrião incorporar um personagem, se estivéssemos seguros o suficiente do que estávamos fazendo as pessoas pensariam que éramos artistas, jornalistas, ou alguma personalidade excêntrica do Suriname, acho que nossa aparência obviamente estrangeira ajudou bastante, a ponto de que até mesmo o organizador do evento veio a nossa mesa nos cumprimentar e perguntar se estávamos disfrutando do evento, com muita simpatia e sinceridade, eu agradeci por tudo, e proferi alguns elogios ao buffet que servia um delicioso jantar.

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A festa durou algumas horas, ainda era cedo e decidimos sair em busca de mais diversão, passamos em um estabelecimento já conhecido por meu colega, e ele decidiu pedir um café e algo para comer, eu que era mais cara de pau já tinha me empanturrado na festa, e decidi assistir uns malabaristas que faziam um show de pirotecnia na rua, em troca de alguns trocados. Me aproximei, fiquei assistindo, e depois fui conversar com eles para saber se eles conheciam algum lugar com música, ou algo para fazer naquela noite, eles comentaram que havia uma festa a alguns quarteirões dali, e que eu podia ir com eles, eu disse que estava com um colega e que voltaria para avisa-lo, eles me explicaram mais ou menos como chegar, disse então que logo os encontraria.

Quando voltei ao restaurante, meu anfitrião já observava a cena de longe, e antes mesmo de eu propor de irmos a festa, ele me fuzilou com uma onda de críticas por haver falado com aqueles artistas de rua, ele tentava me convencer que aquelas pessoas eram perigosas, e que eu não deveria falar com esse “tipo de pessoa”, pediu a opinião do dono do estabelecimento, que começou a proferir um onda de preconceitos baseado na cor da pele daqueles artistas, a discussão começou a esquentar,, e eu comecei a me exaltar, não tolerava a quantidade de absurdos que saiam da boca daquelas duas pessoas, foi ofensivo, senti aquela violência me atingindo, e naquele momento decidi que não iria ficar mais hospedado na casa daquele racista. Fui pra festa, encontrei os artistas de rua, tomamos algumas cervejas, aproveitamos a música, pelo amanhecer peguei minhas coisas e fui embora.

É, no fim das contas não foi somente pela minha chegada inesperada que nossa relação não sincronizava, era uma divergência de valores muito forte, talvez na Guiana Inglesa eu tivesse mais sorte.

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