Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

O Pantanal e seus Corixos

Assim que terminou nosso período no projeto PAAPI, demos uma passada na Chapada dos Guimarães, onde tivemos a oportunidade de almoçar com vista para aquela exuberância da natureza, um paredão imenso cor de terra, que faz com que uma cachoeira pareça um simples filete de água. Lais, minha irmã teria por volta de três semanas antes de suas aulas de medicina voltarem, e tinha muita vontade conhecer o Pantanal, após analisar alguns mapas, e conversar com pessoas que já haviam visitado o local, decidimos que nossa porta de entrada para a cidade seria Poconé.

Tomamos um ônibus de Cuiabá até a tal cidade, e chegamos quando já era noite, conversando com os locais descobrimos que havia um senhor chamado por eles de Jô que hospedava as pessoas em sua casa por um preço razoável, caminhamos poucos quarteirões e logo encontramos o local. A “pousada”, se é que o termo se aplica para aquela espécie de cortiço, era terrível, os quartos bem sujos e o senhor que nos atendeu estava completamente alcoolizado escutando uma pregação (leia gritação) de um pastor de alguma vertente cristã que não posso afirmar com certeza qual era, que deixava o clima do local sinistro com direito a aracnídeos no banheiro, ainda assim pagamos vinte e cinco reais para pousar a noite, pois estávamos muito cansados e não conhecíamos bem a cidade. Dormimos sabendo que no dia seguinte deveríamos estar empenhados em encontrar uma hospedagem mais barata, ou mesmo gratuita para que nosso orçamento não estourasse e pudéssemos pregar o olho com tranquilidade.

Na manhã seguinte o velhinho estava de pé antes das seis da matina não me pergunte como, pois imagino que a ressaca estava braba, nos serviu pão com manteiga, mortadela e café com leite. Saímos pela cidade, e trocando ideias com alguns senhores que estavam sentados em cadeiras de praia pelas calçadas da pequena cidade, soubemos que se quiséssemos conhecer a natureza local, a melhor maneira seria ir para Porto Cercado ou Porto Jofre, que estavam à algumas dezenas de quilómetros de Poconé, como estávamos em época de cheia e a Transpantaneira se encontrava alagada com algumas pontes inutilizáveis, decidimos que uma boa opção de explorar o Pantanal seria por Porto Cercado. Colhemos algumas seriguelas, ou jacote como são chamadas na região, no quintal da “pousada” e seguimos caminhando em direção à estrada que leva a Porto Cercado.

Pantanal

Alongamos nosso dedo polegar e começamos a pedir carona, na entrada da cidade só passavam carros cheios, ou 4×4 de fazendeiros que nem olhavam na nossa cara, ficamos quase uma hora tostando no sol, até que uma pequena caminhonete parou, Lais foi na frente e eu na caçamba, avançamos uns 10km e mais uma vez estávamos na beira da estrada acenando para os carros. Dessa vez foi diferente, alguns minutos e já conseguimos alguém disposto a nos levar diretamente ao nosso destino. O nome desse alguém era Santana e nos informou que em Porto Cercado havia um grande complexo do SESC, e que eles disponibilizavam espaço para que as pessoas acampassem dentro de sua propriedade.

Santana nos deixou no portão de entrada e conversando com os seguranças do Resort “Ecológico” fomos informados que o espaço de acampamento já existiu um dia, porém hoje em dia o gerente não autoriza mais que haja acampamentos por lá, uma vez que isso implicaria em responsabilidades por parte da empresa com os ali presentes. Fomos perguntar sobre o preço de uma hospedagem que havia ao lado de onde estávamos e saímos correndo ao escutar 130 reais, continuamos nossas tentativas de encontrar abrigo em um estacionamento que havia por perto, e perguntamos se haveria a possibilidade de montarmos nossa barraca em uma área coberta que eles possuíam mas a resposta foi negativa.

Pantanal-2

Começou a chover, e preocupado com a integridade dos equipamentos fotográfico, pedi a um funcionário da limpeza que nos disponibilizasse alguns sacos de lixo para forrar o chão onde montaríamos nossa barraca, próximo à uma rampa de embarcações em um gramado onde o espaço era público. A chuva começou a apertar, rasguei os sacos, os estendi no ar e pouco instantes antes do plástico tocar o solo, tive uma visão de esperança, o jovem segurança do SESC vinha correndo em nossa direção e nos disse que poderíamos pousar uma noite na área de recreação dos funcionários, e não era só isso, ainda nos arrumaria um colchão e um sofá para que dormíssemos de maneira mais confortável. Poucos segundos antes estávamos montando nossa barraca ao lado de cachorros infectados por leishmaniose, em seguida tínhamos um local com mosquiteira, banheiros limpos, água gelada e até um cafezinho grátis. Essa é a magia desse tipo de viagens, quando tudo parece estar perdido, o universo conspira ao seu favor e pronto, tudo está bem novamente.


No dia seguinte o gerente iria chegar ao local, e muito provavelmente nós perderíamos a mamata de hospedagem grátis com open-coffe, percebendo essa possibilidade queríamos encontrar alguém que estivesse disposto a nos levar para conhecer o Pantanal por vias fluviais. Perguntamos à alguns barqueiros que estava cobrando em média cem reais pelo serviço, porém um deles comentou que na outra unidade do SESC haviam algumas lanchas que levavam os hóspedes nesse tipo de passeio guiado, nos pareceu um pouco difícil conseguir pois era um estabelecimento de alto padrão, mas não custava nada tentar.

Fomos até a recepção e nos foi informado que caso houvesse interesse, teríamos que pagar o “day-use”, que seria uma diária de setenta reais, que simplesmente nos daria o direito de pagar mais trinta e cinco reais pelo passeio, ou seja, fora de cogitação. Um dos funcionários nos disse que poderíamos tentar conversar com o subgerente, pois a empresa valoriza estudantes, e talvez houvesse a possibilidade de algum desconto. Em contato com o subgerente ele nos reafirmou os valores da empresa que vê com bons olhos os estudos e esforço pessoal, e que se fizéssemos uma declaração de nossas intenções e tivéssemos como comprovar vínculo acadêmico talvez conseguisse nos isentar dessa taxa. Fizemos um declaração de nossos projetos sociais, citando a causa indígena, anexando cópias de nossos documentos e carteirinhas de estudantes e em poucos minutos, magicamente nos concederam uma autorização para fazer o tal passeio no dia seguinte.

Voltando para nossa casa temporária na área de funcionários, estávamos pensando em uma maneira de prolongar nossa estadia no local, uma vez que teríamos a possibilidade de realizar essa exploração fluvial somente dia seguinte, e nosso prazo para dormir por lá era só de um dia. Assim que chegamos o gerente me chamou pra sua sala, eu já entrei elaborando a desculpa que daria, entretanto fomos surpreendentemente bem recebidos, ele me disse que poderíamos ficar nos conseguiu um colchão extra para que não dormisse no sofá, e ainda nos ofereceu um jantar. Começou a bater um papo descontraído, falar abertamente de assuntos particulares e de como tinha vencido na vida, além disso ainda conseguiria um guia para nos acompanhar em uma trilha nos próximos dias. Comecei até a ficar preocupado em estar gastando toda a minha sorte no começo da viagem.

Enfim realizamos o passeio em barco,  trajeto foi maravilhoso subindo pelos corixos do Pantanal acompanhamos de perto uma variedade imensa de fauna e flora.

Após realizar o passeio de barco, ainda tínhamos muitos dias pela frente, e muito o que conhecer do Pantanal, ficamos sabendo de um local chamado Baía das Pedras, que ficava a alguns quilômetros de sol escaldante de onde estávamos, soubemos também que saia um bondinho de dentro do resort que levava turistas para conhecer a região. Como de costume fomos tentar a sorte e subir no transporte sem pagar, nos poupando de fritar no calor pantanesco, e alguns reais. Deu certo, os funcionários já estavam acostumados com nossa presença e pensavam que éramos hospedes. O passeio foi ótimo, tive a possibilidade de tirar as melhores fotos de aves, e até mesmo crocodilos que chegaram bem perto de devorar alguns tiozões de shorts floridos e óculos escuros de marca que imprudentemente agachavam a poucos centímetros dos bichanos, que se não fossem obesos e sedentários, teriam uma refeição bem indigesta de turistas com alto teor lipídico.

Depois de vários dias abusando da estrutura do SESC, resolvemos ser ainda mais ousados, decidimos que arriscaríamos fazer um ultimo passeio de barco, que nos levaria a uma trilha no meio da mata. Mais uma vez conseguimos nos entrosar sem pagar nada, os lugares por onde passamos eram lindos, mas fomos devorados por mosquitos a ponto de ficarmos indispostos, com as costas formigando e tudo que eu queria era sair de lá. Conversando com Lais no caminho de volta, estávamos de comum acordo de que não tentaríamos utilizar mais nenhum recurso do SESC, pois já estávamos ficando visados.

Quando chegamos ao local onde estávamos dormindo, um segurança que nos havia dito que já urinou no pai e que estava xavecando a Lais, ao perceber que não tínhamos o que  jantar, por um lindo ato de romantismo desmedido resolveu ligar para a gerência como se fosse o dono do SESC, e requisitar um jantar para nós dois, essa foi a gota d’água, o subgerente o pediu para que passasse o telefone para mim e nos informou que o SESC não nos poderia oferecer mais nenhum tipo de suporte, havíamos chegado ao fim da linha no Pantanal. Esse mesmo segurança nos colocou em contato uma mulher que estava prestando serviço para o porto ao lado, e ela nos deu uma carona em uma 4×4 bem confortável e com ar condicionado.

O nosso próximo destino seria a Cobija na Bolívia, porém uma grande surpresa nos esperava por lá.

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