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As pequenas grandezas no caminho

O Sapo, a Rainha e o Cipó

Arnaldo nos colocou em contato com Jessé, um ribeirinho que possui família no rio Croa, e se disponibilizou a dar-nos uma carona até beira do Croa, onde encontraríamos um outro amigo seu que com uma pequena lancha, nos levaria à comunidade que se situa nas margens do rio.

Bem cedo na manhã seguinte veio Jessé, passamos em um supermercado para comprar alguns mantimentos, abastecemos o carro com combustível, e seguimos rumo ao Croa. Assim que chegamos à beira do rio caia uma garoa densa, e pensamos por alguns instantes que o amigo de Jessé não apareceria para nos buscar, porém foi o tempo de estacionar o carro numa improvisada garagem de madeira e logo avistamos a pequena canoa equipada com uma rabeta que nos levaria rio acima.

O trajeto pelo Croa era bem bonito, a floresta era densa e ainda muito preservada, passamos por diversas casinhas feitas de madeira com suas próprias plantações de alimentos, e animais sendo criados soltos na natureza. Após algo em torno de vinte minutos chegamos ao nosso destino, a casa de David, irmão de Jessé, a maior e melhor construída que eu tinha visto por todo o caminho. Mas o que mais me chamou atenção é que a ao redor da casa havia um enorme cultivo de uma planta de linda folhagem, fui perguntar a respeito e me disseram que era Chacrona, porém ali a chamavam de Rainha, suas folhas são um dos componentes utilizados na preparação do Daime. Comentaram também que na mesma noite seria realizado um trabalho espiritual, no qual a bebida seria consumida e nos convidaram a participar do mesmo.

Como sabia que o ritual poderia durar muitas horas, fui descansar, comer um pouco de sopa, e já deixei minha barraca montada com minhas coisas dentro, pois não sabia quais seriam os efeitos do Daime no meu corpo, nem se teria condições de executar qualquer ato que requeresse algum tipo de coordenação motora após a cerimônia.

O ritual foi bem diferente do que eu tinha acompanhado no Alto Santo em Rio Branco, os participantes também estavam vestidos com suas fardas, homens e mulheres ficavam em lados opostos do altar, porém todos se mantinham sentados em seus lugares, sem dança e movimentos como havia no anterior. O processo começou com a reza de três “pai nosso”, só então primeira dose foi servida, alguns hinários foram cantados, em seguida veio a meditação, ainda não sentia os efeitos, portanto no momento em que foi oferecido, tomei a segunda dose. Em algumas etapas as pessoas se levantavam, eu acompanhava os participantes que já conheciam o ritual e seguia em meu estado meditativo, comecei a sentir meu braços um pouco mais leves, mas nada que afetasse minha mente de uma maneira muito profunda.

O Daime foi servido por volta de cinco vezes, intercalado com alguns cantos, rezas e momentos de concentração, eu parei na terceira dose, não por estar sentindo os efeitos muito intensamente, simplesmente por não conhecer a substância e como seria sua reação em meu corpo. Tive alterações de percepção bem leves, nada muito fora da realidade, enquanto outras pessoas pareciam estar transcendendo suas consciências de uma maneira muito intensa, inclusive Yann, o garoto francês que me acompanhava.

Depois da cerimônia as pessoas continuaram reunidas ao redor da fogueira, conversando sobre suas experiências, e se aquecendo do frio que chegou junto com a madrugada. Eu já estava bem cansado devido as recentes viagens que havia feito na caçamba de caminhões, passei um pouco de rapé, fiquei alguns minutos com o pessoal e decidi me recolher ao meu nobre aposento de nylon.

Na manhã seguinte acordei com a voz de Jessé convidando Yann para o café da manhã, o que me fez saltar rapidamente para fora da barraca. Comemos pão com queijo, frutas e café com leite, depois aproveitei o dia para reconhecer território e tirar algumas fotos. Durante a caminhada pude encontrar o cipó, Iagê ou também Mariri, que combinado com as folhas da Rainha (Chacrona), formam a receita clássica do chá de Ayahuasca (Daime na vertente cristã). Ao lado de onde se encontravam plantados os cipós, havia um galpão onde o chá era preparado, grandes fornos à lenha, pilões e recipientes para armazenamento compunham o visual desse místico cenário. Tal comunidade no rio Croa produz o Ayahuasca em grandes quantidades, e são responsáveis por abastecer diversas igrejas da região.

Os dias estão passando cada vez mais rápidos, e um ano já me parece um curto espaço de tempo para realizar todos os planos que tenho mente. Decidimos dar uma contribuição à comunidade por tudo que estávamos recebendo, e durante alguns dias colaboramos com a construção de uma igreja, onde futuramente serão realizados os trabalhos espirituais. Realizamos o manejo de algumas árvores, e carregamos dezenas de troncos e varas de madeira para um área próxima de onde o templo será construído. Ajudamos a preparar essa madeira, tiramos suas cascas, cortamos algumas varas para cobertura da igreja, e fomos com uma canoa a uma comunidade vizinha buscar alguns barrotes que serviriam como estrutura.

Quando voltei à casa, um dos rapazes que estava por lá descascava uma raiz que parecia com mandioca, quando o questionei sobre a procedência de tal raiz, me disse ser Sananga, uma planta utilizada em rituais de Xamanismo indígena na forma de colírio, com intuito de curar má sorte e infelicidade, dizem até que melhorar a visão de quem estiver procurando uma mulher para casar. Como já havia escutado relatos de pessoas que comparavam o uso da Sananga, com o ato de pingar pimenta nos olhos decidi não participar de tal ritual.

rio croa2

Vejo que David é um dos membros mais intelectualizados da comunidade, possui um educação formal que a maioria dos habitantes desconhece, e uma malandragem de cidade grande da qual se utiliza para ter vantagem sobre outros ribeirinhos. Pude acompanhar uma reunião com órgãos do governo que desejam investir na autonomia da comunidade, e em todas as decisões, David induzia o voto de outros membros à decisões que o beneficiariam direta ou indiretamente, fazendo parecer em seu discurso que as medidas seriam em pró do coletivo. Em sua casa, cuida de algumas crianças que os pais não tiveram condições de criar, o que a primeira instância pode parecer um gesto nobre, se torna um ato de crueldade quando se observa com mais proximidade, trata de uma maneira diferente de seus próprios filhos, força-os a trabalhos exaustivos, e poda suas possibilidades de se tornarem independentes com as limitadas perspectivas de vida que apresenta aos mesmos.

No nosso último dia no rio Croa, acordamos cedo e como havíamos combinado com Ricardo de que participaríamos do ritual de purificação do sapo Kambô, seguimos sua orientação e nos mantivemos em jejum. A vacina do sapo Kambô é uma resina retirada de uma perereca nativa da Amazônia (Phyllomedusa bicolor)  que contém peptídeos analgésicos que tem como efeito o fortalecimento sistema imunológico e provocam a destruição de microrganismos patogênicos. De acordo com a cultura indígena, o Kambô tira a “panema”, a “tiriça”, que seria uma espécie de esmorecimento que acomete a pessoa, ocasionando um estado de letargia e tristeza atípicas. A aplicação é feita através de pequenas queimaduras produzidas geralmente no braço ou pernas de quem receberá a vacina. Yann foi o primeiro a participar, levou cinco queimaduras no braço e logo teve a resina aplicada sobre os ferimentos, os efeitos não tardaram muito em aparecer, e logo ele estavam no chão se contorcendo, e tendo crises de vômito. Após acompanhar a cena, decidi que só iria aplicar três queimaduras no braço, dose mínima, de acordo com Ricardo nosso orientador, para que a vacina tenha efeito. Recebi minha aplicação e em poucos segundos já sentia uma forte pressão nos ouvidos, minha visão começou a ficar turva, e senti violê contrações gástricas como se meu estômago estivesse revirando dentro de mim, depois de dez minutos lavei meu braço para retirar a toxina, e a sensação foi de extremo alívio.

Depois que passaram os efeitos, me sentia bem e com uma sensação de leveza, não sei se era alívio de não sentir mais aquela sensação, ou se a vacina tinha surtido algum efeito, mas estava satisfeito com as experiências que tive no Croa, e já era tempo de voltar para Cruzeiro do Sul e organizar nossa ida para a aldeia dos Puyanawa. Aproveitamos que havia um grupo de pessoas que estavam de saída para Cruzeiro do Sul, e já nos entrosamos na carona de volta para a cidade.

 

 

 

 

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