Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

Selva de concreto Amazônica

Cheguei em Manaus de madrugada e como tinha o endereço exato da casa de Wildes, a pessoa que me hospedaria, achei que não teria muitos problemas em encontrar seu domicílio, mas nem tudo é como a gente pensa. Desci o barco com minha bagagem que já não é das mais leves, e mais duas sacolas cheia de comida que ganhei da tripulação do barco (valeu galera), no ponto de ônibus tentei me informar com os populares que também aguardavam o busão, sobre qual coletivo eu deveria tomar para chegar no meu destino, nesse instante já começou a incerteza, entre eles parecia haver divergências sobre se o nome que eu tinha anotado “Conjunto das Flores” se referia a um condomínio ou um bairro de Manaus. Um jovem que estava no local sacou seu esperto-fone, mas nem mesmo o todo poderoso google foi capaz de acabar com a ambiguidade do conteúdo. Apesar da lacuna de informações acabei subindo impulsivamente em um ônibus estimulado pela massa popular que gritava “vai, vai, sobe”.

Junto comigo, subiu um dos rapazes que estava empenhado em decifrar o enigma do “Conjunto das Flores”, ele disse que conhecia a parada onde incertamente decidimos que seria o mais plausível de eu descer. A tal parada era ao lado da Arena Amazônia que abrigará a copa do mundo, e pra me ajudar mais um pouco naquele exato momento estava sendo realizado um show de música sertaneja nas redondezas, era alguma dupla muito conhecida pois as ruas estavam abarrotadas de coxinhas com chapéu de cowboy e calça colada, foi difícil encontrar alguém que não estivesse alcoolizado e pudesse me dar alguma informação confiável sobre o endereço que queria chegar. Pensei comigo que mesmo que talvez fosse uma boa opção perguntar ao segurança do local onde estaria localizado o Conjunto das Flores, que de acordo com as coordenadas anteriores deveria estar por perto, mas pra minha surpresa ele disse com muito convicção que ficava do outro lado da cidade, como já não haviam mais ônibus circulando acabei pegando um moto-taxi.

A moto me deixou em frente a uma casa, na qual havia um telefone escrito em uma placa de aluga-se, com o telefone do próprio motorista do moto-taxi liguei para o tal número, me apresentei como o Felipe do couchsurfing, e a pessoa disse que já sairia pra atender, paguei o rapaz da moto, tranquilo de que estava no lugar certo, passaram, dez, vinte, trinta minutos e nada, ouvi barulho de televisão na casa ao lado, e perguntei para os vizinhos se poderiam me ajudar e telefonar para o número que havia na placa, um jovem rapaz e uma senhora foram extremamente rudes e não quiseram me ajudar, ficaram bem desconfiados e me enxotaram do local, como não queria arrumar confusão fui procurar em outras ruas alguém disposto a me emprestar um celular. Quando consegui, mais uma surpresa, a pessoa disse que era engano e que eu não deveria telefonar mais, nesse momento já não sabia o que fazer, fiquei andando meio desconsertado, extremamente cansado às três da manhã, num lugar totalmente desconhecido, foi quando um carro para ao meu lado, era um senhor de meia idade que se apresentou como o vizinho da casa na qual eu estava tentando contato, e me disse pra subir no carro, foi o que eu fiz.

Ele me levou pra sua casa, me ofereceu café e a senha da sua internet, tentei contato com Wildes pelo couchsurfing, porém ele não havia deixado nenhum telefone de contato, conversei com outros couchsurfers que se dispuseram a ajudar na manhã seguinte. O senhor se ofereceu a pagar um hotel para que eu passasse a noite, mas achei que seria abuso de sua boa vontade e decidi voltar para o barco e esperar a manhã seguinte para encontrar com Wildes. No caminho fomos conversando ele contou que chegou em Manaus sem dinheiro algum, e no começo vendia água e pedia algumas frutas no mercado da cidade para se alimentar, hoje está muito bem de vida. Durante o trajeto o Senhor, que infelizmente não lembro o nome, resolveu passar em um local que ele acreditava ser o endereço que eu estava procurando, enquanto rodávamos pela região reconheci uma foto de Wildes que estava estampada na cobertura de um estúdio fotográfico juntamente à um número de telefone, tentei contato mas já era muito tarde e não obtive resposta, mas agora já estava certo do endereço e tinha um número de telefone para ligar na manhã seguinte. Ele me deixou no porto, agradeci pela ajuda e fiquei muito feliz por existirem pessoas boas e generosas como ele, dormi na minha rede por algumas horas para me recuperar um pouco do passeio na madrugada de Manaus.

Pela manhã o pessoal do barco me convidou para tomar café da manhã (valeu mais uma vez), e consegui falar com Wildes que foi me buscar de carro no porto da cidade, nem acreditava que tinha conseguido, depois de tantas desventuras estava no rumo certo de sua casa. Depois de me acomodar, como era final de semana ele tinha um tempo livre para me levar à conhecer a cidade, Manaus tem um centro histórico bem preservado com casarões construídos na época do boom do látex, que constituem um cenário que nos transposta diretamente para a época de áurea da cidade. Durante esse período uma quantidade elevada de nordestinos migrou pra região, trazendo junto consigo uma grande bagagem cultural que reflete até os dias de hoje na vida cotidiana do Amazonense, desde a alimentação que inclui vatapá, leite de coco, tapioca até na questão musical, uma vez que o forró é um dos ritmos mais populares na região. Logo que cheguei na cidade tive uma precipitada primeira impressão de que o povo amazonense era fechado e pouco sociável, mas na verdade eu estava completamente errado, um grande parte da população se mostra um pouco acanhada de inicio, mas depois do primeiro passo na interação revelam-se um povo muito amável que gosta de ouvir e contar histórias, ensinar um pouco de sua cultura pra quem vem de fora.

Um das visitas que realizei durante a minha estadia em Manaus foi ao Parque do Mindu, no momento que entrei no parque com minha câmera fui abordado por seguranças que me encaminharam à direção, me “informaram” que não poderia divulgar nenhuma imagem que registrasse no local além da fauna flora nativa, e que de maneira alguma poderia citar o Parque do Mindu em minha publicações. Achei tudo aquilo muito estranho mas a resposta e compreensão dos motivos daquela abordagem vieram na sequência, fiquei muito triste de ver o que vi, o igarapé que corta o parque ao meio, o mesmo que dá nome ao local, está completamente poluído, cheio de lixo acumulado em suas margens e os animais lutam pra sobreviver naquela ambiente que deveria ser uma área de proteção ecológica no meio do concreto de Manaus. O parque está referenciado no mapa turístico da cidade, e apesar de estarem fazendo algumas pequenas obras estruturais, pouco se faz pela preservação das belezas naturais do espaço, fico imaginando os turistas gringos indo ao parque, querendo sentir o gostinho de caminhar por uma área de preservação da floresta amazônica e se deparando com todo aquele lixo, sentindo aquele cheiro horrível, um papelão pra nossa imagem, mas a Arena Amazônica está lá, bem bonita depois dos 8 bilhões gastos até agora com as construções de estádios.

Mas Manaus também tem suas belezas, a natureza ainda é muito exuberante e mesmo no perímetro urbano ainda é possível encontrar áreas de muito verde com fauna e flora bem variada. Um passeio legal para se fazer é visitar o encontro das águas do Rio Negro e Rio Solimões, que criam um lindo contraste entre a água turva de um e a barrosa do outro, quando você se aproximar do porto irão te oferecer diversos passeios turísticos em lanchas para passar pelo encontro das águas, com preço chegando a até trezentos reais, ignore todas essas pessoas e pergunte onde você pode embarcar na balsa, que além de ser de graça, vai passar bem devagarzinho pelo encontro, proporcionando uma ótima oportunidade para tirar ótimas fotos, ou mesmo apreciar a paisagem com mais tranquilidade.

Outro lugar que não pode ficar de lado durante uma passagem por Manaus é o Mercado Municipal e seus arredores, ao caminhar pelo local você será presenteado com diversas formas, curvas, cores, odores e sabores, além de acompanhar o dia à dia do autêntico amazonense, do trabalhador, da dona de casa, dos pescadores e agricultores, pra mim foi meu lugar favorito. Estava tudo muito bom em Manaus, a família de Wildes me recebeu e tratou muito bem no período que estive alojado em sua casa, mas sempre chega aquele momento da despedida, a viagem tinha que continuar, peguei minha mochilas e fui incomodar os donos de barco na região do porto, chorei até conseguir um preço que se enquadrasse dentro do meu curto orçamento, mas no final deu tudo certo, deu tempo até de conhecer umas novas amizades, ser convidado para degustar uma erva regional no apartamento de Klaryson, que por sinal foi uma pena ter conhecido poucas horas antes da saída do meu barco, mas a vida de viajante é assim, próxima parada: Santarém – Pará.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *