Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

St. Laurent du Maroni

No caminho de Saint Laurent aconteceu algo que eu nem sei se posso chamar de coincidência, estava esperando uma carona na beira da estrada que demorava para chegar, e via os carros passando, uns carros de luxo em alta velocidade, e comecei a pensar que quanto mais dinheiro as pessoas tinham, mas egoístas elas eram, que nunca um carro desses ia parar e me levar. Não deu nem 5 minutos e um carro esportivo, não sei a marca, mas um desses de só dois lugares que deve custar algumas centenas de milhares, parou e perguntou para onde eu estava indo, e no caso, nós dois estávamos indo para Saint Laurent du Maroni.

Subi no carro, e lembrei o quão simplista e superficial é generalizar as pessoas por alguma característica que possuem, isso é preguiça intelectual e emocional, fica mais fácil etiquetar as pessoas com conceitos pré-definidos de nossos limitados horizontes, do que se abrir para conhecer o indivíduo e expor nossas profundas intimidades, para que haja cumplicidade e confiança, e assim então gerar uma vivencia de troca de experiências e aprendizado. Tal convivência rompe paradigmas, obriga nossa mente a fazer novas conexões nos deixa mais sensível. Viver de certezas e preconceitos enrijece e emburrece a mente.

Fomos trocando uma ideia, ele, argeliano, morava na Guyanne e trabalhava com publicidade, não gostava do que fazia e tinha consciência do efeito, nem sempre positivo, do seu trabalho na vida das pessoas. Era um cara pragmático que estava disposto à negligenciar alguns de seus valores em troca dos benefícios que o dinheiro pode proporcionar, não o julgo, o sistema é foda.

Paramos por um suco e comentei que ficaria na casa de um brasileiro, Alessandro, ele disse que conhecia um brasileiro na cidade, e descrevendo sua família e por algumas fotos que eu já havia visto dele, chegamos ao consenso de que falávamos da mesma pessoa. Ele ficou empolgado com essa história e falo que me levaria direto na casa do Alessandro, assim já aproveitaria para visitar um velho amigo.

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Assim que estacionamos o carro, fomos recebidos com toda a calidez latina, um gritando o nome do outro até o instante em que Alessandro surge em meio à uma parede vive de arbustos e consuma nosso encontro com um abraço. A família dele foi maravilhosa comigo, sua esposa, sua duas lindas filhas, se eu ficasse aqui descrevendo tudo que eles fizeram por mim os dias em que eu fiquei sua residência, não ia sobrar mais espaço aqui no post, mas em resumo, eu ia ficar uma semana e fiquei um mês e meio por lá.

Tem algumas questões que chamaram minha atenção na Guyanne como um todo, mas em especial em Saint-Laurent, uma delas é a diversidade racial e cultural, mesmo na casa em que eu estava ,morava o brasileiro, sua esposa do Suriname suas filhas da D e um amigo da França. A quantidade de idiomas falados pela sociedade guianense é imensa, oficialmente se fala o Crioulo da Guiana Francesa, que é baseado no francês, inglês, português, espanhol e outros dialetos africanos e ameríndios, mas também pode-se encontrar seis línguas ameríndias, quatro dialetos quilombolas, hmong, português, hakka (um dialeto chinês), crioulo haitiano, espanhol, holandês e inglês.

Toda essa miscigenação me fascinava, e os ambientes que mais expressavam essa interculturalidade eram os que mais me chamavam a atenção. Quem acompanha o Blog sabe da minha paixão pelos mercados populares, quando me dei conta, estava passando horas diárias nas feiras livres da cidade, só para observar a dinâmica de convivência entre essas pessoas e me alimentar de todas aquelas referências antropológicas.

Caminhar pela beira do rio e observar o Suriname do outro lado também alimentava muito minha imaginação, e de uma maneira positiva em relação ao que estaria por vir, ao mesmo tempo as incertezas se apresentavam em forma de ansiedade, que eu tratava transformar em pinturas de luz através das minhas lentes.

Outro evento interessante durante a minha estadia foi o Art Pasi Festival, realizado por jovens franceses que moram na Guyanne, a intenção era promover a integração cultural europeia, com as tradições e expressões artísticas locais. Havia música, dança, teatro, gastronomia e as mais variadas intervenções artísticas, fiquei muito feliz em haver participado de tal evento. Aproveitei essa oportunidade para preparar uns brigadeiros e fazer uma graninha durante o festival, algo que não requer um nível de conhecimento gastronômico muito elevado e acaba sendo uma atividade social, uma maneira diferente de entrar em contato com as pessoas.

Já havia decidido que depois do Art Pasi eu cruzaria o rio sentido Suriname, e foi o que eu fiz, à bordo de um tradicional “pirogue”, nos primeiros cinco minutos que entrei no país já me meti num B.O., mas isso é assunto para o próximo post.

 

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