Redescobrir

As pequenas grandezas no caminho

Uma experiência além dos sentidos

Conheci uma garota pela internet, que disse que poderia me hospedar em Georgetown, quando pedi seu número de telefone recebi também as instruções de não telefonar, somente mandar mensagens. Achei algo estranho mas como o contato havia sido feito por um site confiável, resolvi aceitar o pouso em sua casa.

Havia saído com pressa do Suriname devido à divergências de valores com meu último anfitrião, e não haviam balsas para cruzar o rio nesse dia, decidi então voltar alguns quilômetros na estrada, até o último grande cruzamento, onde lembrava haver visto um pequeno restaurante. Fiz sinal de carona e um carro parou, o motorista já me ofereceu uma cerveja quente e começou a conversar, contei um pouco da minha história nos últimos dias, e ele disse que ao invés de me levar ao cruzamento, me levaria a uma casa que ele tinha construído ali perto, dentro de uma plantação, não tinha energia elétrica, mas serviria para passar a noite.

Paramos o carro onde parecia ser o ponto mais próximo que a estrada chegava e entramos na plantação. O acesso era bem difícil, e com as mochilas pesadas mais ainda, pequenas pontes improvisadas com apenas um tronco fino desafiavam meu equilíbrio, depois que chegamos pude perceber que a precária construção não me protegeria nem de uma leve garoa, decidi então voltar e acampar no alpendre do pequeno restaurante na beira da estrada.

Chamei com o dono do restaurante, disse que eu era um viajante e perguntei se poderia passar uma noite acampado em seu alpendre, ele disse que sim, me serviu uns sanduíches de manteiga de amendoim e refrigerante, e ainda ofereceu sua filha para dormir comigo, revelando um pouco sobre a sutileza do humor guianês. Mais tarde um senhor holandês passou com sua esposa e me contou de suas aventuras e viagens quando jovem, conversamos por horas, na saída ele ainda deixou pago um café da manhã para o dia manhã seguinte, o que alegrou ainda mais meu dia.

Na manhã seguinte peguei a balsa, e consegui carona com Ailton, um brasileiro que mora na Guiana há muitos anos, ele se dispôs a me deixar exatamente onde havia combinado com a garota que me receberia na cidade. Chegando às proximidades enviei algumas mensagens, pois não havíamos encontrado o endereço exato, com a ausência de respostas, decidi telefonar, apesar da recomendação de não faze-lo. A comunicação foi bem difícil, comecei a pensar que talvez ela tivesse alguma deficiência auditiva, mas ainda assim conseguimos combinar os detalhes do nosso encontro.

O brasileiro não só me deixou no local, como também ficou esperando que a garota chegasse, achava estranho toda essa história de conhecer pela internet. Avistei uma pessoa parecida com a das fotos e ele ficou mais tranquilo, me despedi do meu compatriota e desci do carro. A minha anfitriã me cumprimentou e logo começamos a conversar, depois de alguns minutos de papo rolando, contei pra ela que tinha achado estranho o fato dela pedir para que entrasse em contato por mensagem e cheguei a pensar que ela era surda, e para o meu desconforto, ela disse que sim, não completamente, mas tinha algo como 10% da audição eu um dos ouvidos. Me senti um pouco incômodo pela indelicadeza como toquei no assunto, mas ela era muito bem resolvida, e parecia estar a vontade em falar disso.

Me contou que sua família tinha boas condições financeiras e que observaram logo cedo o comportamento diferente das outras crianças, e que assim que identificaram sua débil audição, a colocaram em fonoaudiólogos, e incentivaram o estudo de linguagem de sinais, e que agora ela estava trabalhando na Guiana para difundir esse conhecimento para professores e alunos de baixa renda no país.

Sempre que fico na casa de alguém, tento de alguma maneira, muitas vezes não material, retribuir a gentileza da pessoa ter me hospedado. Minha anfitriã comentou que tinha poucas, e não muito boas, fotos de sua atuação como professora, e que seria interessante ter um registro de seu trabalho como recordação pessoal e também como material para dar um feedback para a instituição que ela estava representado no país. A sugestão era que eu acompanhasse e registrasse uma de suas aulas, uma honra para mim, já era algo que eu tinha interesse em fazer, aceitei sem hesitar.


Fotografar a aula foi uma experiência maravilhosa, a sala era composta com algumas pessoas com deficiência auditiva e profissionais da área da educação, como professoras, que gostariam de melhorar suas habilidades de comunicação, e tornar a sala de aula um ambiente mais acessível. Os alunos foram muito receptivos, foi uma relação bem gostosa, no fim do dia ainda saímos com alguns para tomar umas cervejas e conversar.

Alguns dias depois minha anfitriã me colocou em contato com uma garota da Hungria que estava buscando companhia para visitar o país, tínhamos um plano de viagem muito parecido, e ela se animou com a ideia de visitar o monte Roraima, então decidimos nos juntar. Como o namorado da minha anfitriã estava para chegar, e acreditando que eles gostariam de um pouco de privacidade, achei uma boa ideia perguntar sobre hospedagens solidarias à húngara, que já me conseguiu pousada em outra casa no mesmo dia.

Juntos visitamos pequenos vilarejos próximos à capital Georgetown, mas por uma questão de logística com suas passagens aéreas acabamos nos separando antes cruzar a fronteira com o Brasil, sentido Boa Vista. Ela foi de avião, e eu, tentando conseguir carona com os caminhões de minério, ganhei de um dos garimpeiros uma passagem numa van 4×4 Off-Road destino à capital de Roraima.

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