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As pequenas grandezas no caminho

Une partie de la France en Amérique Latine

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Caiena, a capital da Guayana, é bem diferente da maioria das outras cidades do país, suas pequenas e organizadas ruas, se assemelham a algumas cidades europeias, e ao mesmo tempo Caiena tem algo de provincial, detalhes que lembram cidades do interior do Brasil, como o fato de o centro da cidade estar posicionado ao redor de uma praça, uma linda praça decorada com imponentes palmeiras, onde durante o dia, é o principal espaço público de convívio social para quem mora no país.

 

Assim que cheguei entrei em contato com Renaud, um francês que já morou no Brasil, participou como agrônomo de projetos sociais do MST, e atualmente está vivendo em Caiena. Uma pessoa extremamente inteligente e engajada, que me recebeu de braços abertos e me ajudou com minha ambientação e adaptação à cultura local.

Minha ideia era passar um tempo em Caiena para melhorar meu francês, e quem sabe conseguir algum trabalho por lá, para isso Renaud me emprestou sua bicicleta, com a qual rodava a cidade, distribuía currículos e tentava absorver mais informações sobre a dinâmica do país.

Nesses dias em que buscava emprego, conheci muitos lugares interessantes da cidade, o que vou escrever aqui para vocês vai soar um pouco mórbido, mas um dos lugares mais interessantes pelo qual passei, foi o cemitério de Caiena, o local um estilo gótico, repleto de esculturas e túmulos extravagantes, o que torna a visita interessante e curiosa.

As praias não são das mais interessantes, o gigantesco volume de água que desemboca no oceano vindo do rio amazonas, afeta a coloração do mar guianês, o deixando com uma coloração amarronzada e trazendo consigo muito lodo dependendo da época do ano. A experiência de se banhar nas praias guianesas é algo que eu poderia classificar como uma experiência sensorial, suas pernas vão afundando no lodo, chegando até o nível da cintura, e a água é salobre pela diluição causada pelo rio Amazonas, vale a experiência.

Um passeio que não pode ser perdido, é visitar as praias durante a madrugada, em algumas épocas se pode avistar tartarugas marinhas de mais de 2 metros de cumprimentos vindo desovar na praia, é um espetáculo da natureza, uma coisa linda de se ver, eu sentei na areia, a uma distancia de poucos centímetros e acompanhei todo o processo de perto, foi uma sensação maravilhosa de sintonia com a natureza.

Passei alguns meses por lá, e com o tempo fui percebendo que apesar do idioma e dos euros que circulavam, o fato era que estávamos na América Latina, e não na Europa. Diferente do Brasil, onde pobreza e riqueza extrema vivem lado a lado, na Guayana isso está mais segregado, a periferia fica na periferia, por debaixo daquela camada de maquilagem europeia, se esconde também muita miséria, muitos imigrantes ilegais, em grande parte brasileiros que vem atraídos pelos salários mínimos de 1200 euros, e que logo tem seus sonhos mutilados pela alta taxa de desemprego e preconceitos que sofrem por suas origens.

O país depende de subsídios da França, na verdade nem podemos chamar Guayana de país, o termo correto é Territoire d’outre-mer (território ultramarino), uma terminologia rebuscada para colônias modernas, mas não pensem que os guianeses querem independência, a França mantém funcionários públicos no país com salários 60% acima da média da própria França, e atualmente tem mais gastos do que benefícios para o país.

Outra curiosidade sobre a Guayana é o fato de que o país serve como centros dos projetos espaciais franceses, na cidade de Kourou se encontra uma base de lançamento de foguetes, atualmente muito utilizada pela Agência Espacial Europeia.

Apesar do sonho de sempre tive de morar por um tempo na Guayana, pouco a pouco fui sentindo que ali não era meu lugar, e cada vez mais a estrada começava a me chamar, Ana Paula, uma amiga paulista que conheci em Macapá, já me havia passado o contato de um brasileiro que morava em Saint Laurent, na fronteira com o Suriname, e logo decidi que era hora de esticar o dedo, e entrar em movimento outra vez.

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